Friday, January 8, 2010

2009 - Guilt Machine - On This Perfect Day




Arjen Anthony Lucassen, o génio por trás de, entre outros, Ayreon, está de regresso com um novo projecto.

O nome? Guilt Machine. O álbum? On this perfect day.

Seis faixas, a mais pequena com cerca de seis minutos e desta feita um projecto com poucas caras. Para lá do referido juntam-se-lhe Lori Linstruth, que com ele colaborara no projecto Stream of Passion; Chris Maitland, antigo baterista de Porcupine Tree; e Jasper Steverlinck, vocalista dos belgas Arid.

Brevemente (assim que encontre) colocarei o que acho!

Tuesday, January 5, 2010

Sexus, by Henry Miller



Henry Miller partiu em 1930 da sua Nova Iorque natal para Paris. No entanto, quem era este homem, antes da viagem? A sua obra Sexus é uma pista.

Recuando até aos anos 30, logo após a Grande Depressão, ou à década de 40 do pós-guerra, é normal que esta obra seja e deva ser encarada como chocante. É normal porque o relato de um homem que vive contra a maré, tem de chocar aqueles que sempre seguiram a corrente do rio. Não se deve esquecer que aqueles acontecimentos são autênticas quedas de água no rio da humanidade, pontos onde a corrente não volta atrás, independentemente da fase da lua, representando o que de pior a ganância e a soberba humanas têm para dar. A sociedade daí resultante procurou então seguir um rumo contrário, dotada do mesmo extremismo da anterior, no entanto, e das mesmas fachadas. Fundamentalmente, não importa se o que vinga é o glamour e opulência dos anos 20, a belle époque, ou se a contenção dos anos 30, ou os valores morais dos anos 40, todos eles exageradamente extremistas, invariavelmente condenados a serem fachadas.

Sexus é portanto uma viagem a uma Nova Iorque que vive das fachadas dos seus habitantes. Uma Nova Iorque que se esconde por trás de fachadas de edifícios, no aconchego do lar; um olhar público sobre acontecimentos privados. Isso realmente choca as mentalidades da década de 40, tão seguras da sua superioridade moral, tanto como a vitória na Guerra os podia deixar, tanto que proíbem a publicação desta obra, dita, obscena, que de obscena só tem a demolição de fachadas.

A viagem de Miller, e viagem porque grande parte da acção decorre na rua ou a caminho de outro local, é uma viagem à vida dessa cidade que se orgulha de não dormir, feita pelo olhar de um aspirante a escritor, amargurado e desgostoso. Não é uma viagem onde, pornograficamente, mulheres esculturais caem no colo do macho de serviço, mas onde, pornograficamente, é fácil acabar-se na cama com uma.

Pornograficamente? O pornográfico de Miller reside no escrever sobre esse aspecto determinante sobre as relações humanas: aquilo que fisicamente une duas pessoas de sexo oposto. No fundo, aquilo que desde os primórdios assegura a multiplicação da espécie, mesmo que não seja efectuado com esse fim. A base da união... A base do nosso ser social! O pornográfico de Miller, em Sexus, é o deixar cair a cortina para o que se passa nos quartos desses homens e mulheres que se amam! No fundo, o que choca em Sexus não é o que lemos, mas a realização de que estamos a ler o que gostávamos de poder dizer!

Outras leituras se podem tirar de Miller e que são também elas chocantes, para um sociedade estratificada, organizada e que não aceita mudanças. Implicitamente pode-se concluir que não há fórmulas para a felicidade. Pelo personagem principal, esse Mr Miller, esse Val que nunca é identificado, vemos que a satisfação de cada impulso físico do nosso corpo não nos traz felicidade. Afinal, ele entrega-se aos prazeres da carne em múltiplas situações, com múltiplas intervenientes e mesmo assim acaba na sarjeta à procura de algo, vazio e não realizado. Apesar de ceder às vontades não atinge a felicidade. Nem a sua primeira esposa, tão dotada ao casamento de fachada que a sociedade lhe impunha encontra a felicidade, ou não voltaria para ele em busca dessa realização física que o casamento lhe tirara. Onde está então a fórmula da felicidade e da realização? Não é uma resposta que Miller, pornograficamente demolindo as fachadas dos prédios, pornograficamente expondo os quartos, os corredores, as salas, o conforto dos lares, nos dê. Tudo o que ele nos dá é um olhar próprio das salas que frequentou, os quartos onde dormiu, as mulheres que amou. Tudo o resto fica a cargo de quem nele se reveja. Os erros que achem que cometeu, as virtudes que manifestou...

Quanto a mim foi dos livros mais difíceis de ler que encontrei. Várias vezes voltei atrás para reler dois ou três capítulos, noutras alturas parava simplesmente, e como se meteu uma mudança de casa pelo meio, durante quase um ano não soube do paradeiro da obra. Que demorou três anos a ser lida! De resto, quem partir para este livro com esperança que o título indique o que ele relata, terá uma grande desilusão uma vez que o título não indica mais do que uma ferramenta que o autor usa, não o objecto da sua narração.

The Picture of Dorian Gray, by Oscar Wilde



E se uma qualquer fotografia nossa... Não!

E se a nossa melhor fotografia, aquela que capta toda a essência da nossa juventude, na qual gostávamos de ser para sempre revistos, fosse um quadro da autoria de um pintor banal? Para além disso, e se esse quadro fosse o melhor trabalho desse mesmo pintor? Como bónus, e se esse quadro envelhecesse por nós? Melhor ainda, e se esse quadro carregasse todo o peso as nossas acções, à laia de consciência? E se pudéssemos ver a nossa alma?

Basil Hallward é um pintor mediano na Londres da segunda metade do século XIX, até ao dia em que conhece e se deixa fascinar por Dorian Gray, um jovem de beleza e inocências extremas. Basil produz então as suas melhores obras, entre as quais se conta a sua obra-prima, um retrato de Dorian Gray. A beleza e a perfeição com que Basil capta a essência de juventude e inocência de Dorian é tal, que, levado pelo manipulador Lord Henry, Dorian suspira como seria bom ele permanecer para sempre jovem e inocente e que o quadro pudesse envelhecer no seu lugar. Sem que Dorian se aperceba logo, o quadro começa a fazer algo mais do que envelhecer, torna-se a sua alma e a sua consciência.

Mas... Pode a arte ser reflexo da alma de alguém? É a arte algo mutável, ou será algo estático que tem de ser apreciada à luz do momento em que é produzida? Poderá uma qualquer paixão shakespeariana mudar com as oscilações passionais do intérprete? Onde reside a beleza da arte?

Oscar Wilde leva-nos, através das personagens de Dorian Gray e Lord Henry Wotton ao mundo dos dandies da Londres do final do século XIX, um mundo dominado por festas e relações de faz-de-conta e um profundo interesse superficial pelas artes e o filosofar.

Não se julgue no entanto que a esta é uma profunda viagem superficial! A viagem que Wilde faz ao mundo da Arte é uma viagem ao interior profundo da selva que é a definição da Arte em si. Sendo a Arte uma representação do real, que parte do Real se reflecte nela? Ou ainda, sendo a arte a visão de uma pessoa sobre o real, quanto do artista está representado no arte? E quanto do objecto artístico é absorvido pela sua representação?

Recorrendo a uma série de metáforas e comparações com a Antiguidade Clássica e descrições pormenorizadas das ambiências, sem se deixar cair na descrição das interacções dos personagens, Wilde transforma todo o conto num quadro em movimento, um recital de filosofar sobre a natureza da Arte e do Ser e do quanto cada um se toca.

À medida que caminha para o fim e esperamos respostas, estas ficam no ar, ao critério de quem aprecia a obra, pois a saída de cena Basil, o mediano pintor, retira da obra o olhar do artista, deixando-nos a braço com o egoísmo de Henry e a ausência de consciência de Dorian. O saber alto e iluminado dos salões do primeiro e o conhecimento empírico das profundezas do Inferno Humano do segundo, deixando sempre no ar que entre ambos há algo mais do simples atracção, como o indicia a casa de Tânger, à altura, conhecido refúgio de homossexuais.

O livro lê-se muito bem, mas não é um livro de respostas, é isso sim um livro de perguntas.

Boas-vindas

Olá.

Este blog, o primeiro que publico de raíz e em exclusivo, é um blog que dedico a uma vertente mais cultural. Nele vou publicar as minhas opiniões relativas a livros, álbuns, filmes, espectáculos que tenha lido, ouvido, visto, assistido.