Wednesday, May 30, 2012

"Não Entres Tão Depressa Nessa Noite Escura." - António Lobo Antunes


 Será, em termos de volume, um dos maiores livros do autor e hesito em escrever romance. Hesito no romance pois não estou seguro que seja um romance. Estamos seguramente perante um dos melhores exemplares da escrita poética do autor, perante uma das menos lineares narrativas, uma análise, desta vez não às profundezas da mente, mas às teias que unem uma família a fragmentar-se. Acresce ainda que este "Não entres tão depressa nessa noite escura" é ainda um brilhante exemplar de como o acto de ler pode ser fisicamente desgastante sem que isso implique uma escrita sombria.

 A afirmação de que a escrita de A. Lobo Antunes não é sombria poderia ser por si só motivo de discussão. No extremo poderia levar um conhecedor a pegar nesse livro, a perder-se nos seus primeiros capítulos e a fechar o livro para nunca mais o abrir. Na realidade, este que vos fala releu os três primeiros capítulos três vezes para se embrenhar nesse fim tarde, para descortinar os raios de sol pelas grandes janelas do hospital onde tudo começa, onde se espera que o pai de uma família sem nome vá para a sua operação ao coração e que volte como novo para os Cuidados Inten ivos. Foram três releituras para que se formasse então a inevitável pergunta: que noite é essa de que nos fala o título?

 Essa pergunta atravessa toda a obra. Ela vai mudando à medida que mudam os capítulos, vai tomando nuances consoante o narrador, mas está sempre lá. Ela é a morte de um pai de família com problemas de coração, ela é a vergonha de uma família pejada de dívidas que alimentam uma ilusão de grandeza imposta pelos vizinhos, é a pobreza tão profunda que emana um cheiro nauseabundo e torna os pobres em gente sem direitos, sem inteligência, agradecidos por todas as migalhas que os ricos não precisam e sacodem para fora da mesa, que os bestializa e que envergonham quem se dava com as elites coloniais. Pode ainda essa noite ser a vida de sonhos e personagens imaginárias, escondidas em quartos alugados nas traseiras do barbeiro de uma aldeia que não são mais do que quatro casas, ou será essa noite a vida real que vivemos, nos sufoca e nos leva a sonhar com o que podia ter sido, o que podíamos ter mudado, podem ser todas as noites, pode não ser nenhuma delas.

 A obra é apresentada no tradicional estilo catártico do autor, da personagem no consultório a analisar a sua vida. No entanto há algo que torna esta obra particularmente distinta no cânone do autor. Sem sacrifício da densidade e profundidade da escrita, capazes de cansarem o autor, verifica-se que há um tom luminoso que atravessa toda obra. Ao contrário de outras obras do autor, em que nos sentimos abraçados pelas sombras, nesta há uma aura luminosa que ilumina as cenas de espera pela morte em salas de espera, que iluminam os traficantes na praia, que é o raio de luz pela janela do andar de Alcoitão, a luz das máquinas do casino quando se apostam móveis e jóias de vidro. É uma constante na obra, uma oposição a essa noite escura de que nos fala o título, mas não se pense que transborda de alegria. É uma luminosidade que abraça momentos do mais puro desespero que se apodera de nós nas horas de incerteza, que brilha sobre a angústia que sentimos quando vemos o nosso mundo a cair, esse foco que incide sobre o envergonhado. É a luminosidade que passa por entre as folhas das palmeiras, nessa hora de incerteza sobre o passado, quando nos perguntamos "e se tivesse sido de outra forma?".

 Há ainda um lado social na obra. Como disse anteriormente, desta feita o mergulho à profundezas da mente humana é substituído por um dissecar de relações interpessoais, uma perspectiva sobre como nos integramos no meio social. É um olhar sobre essa sociedade de ilusões, as aparências em que tem de se nascer para que se seja aceite, porque os pobres são burros, emanam o cheiro de pobreza, não podem brincar com quem partilhava fins de tarde com o presidente Kruger.

 Toda a obra é a descoberta dessa família de Cascais, saudosa dos tempos africanos, em que mandava e não negociava com pretos e árabes. Uma menina que luta por respeito junto dos alunos, apesar da menina a caminho do casino sem ter o que jogar, a família que faz por esquecer o bastardo com nome de princípe herdeiro que acolhe no seu meio, emanando o cheiro a pobre, a preocuparem-se com os empregados e particularmente com a Adelaide, presa que está entre o que foi, o que gostavam que tivesse sido e o que é.

 E há a Maria Clara. A Clarinha, a Maria Clara que é o homem da casa, nunca Clara, a mãe. Maria Clara a redatora deste diário, a gota de sanidade num micro-cosmos louco, o pilar de realidade que sustenta a vivência imaginária de uma famíilia que tem o pior dos cegos por mãe. A Maria Clara é o homem da casa que perscruta nessa arca do sótão as origens do pai, a Adelaide com uma criança ao colo, as fotos do professor de aldeia. A Maria Clara que nos conta, com uma inveja na pena, a forma despudorada como o médico despia a irmã com os olhos, a Maria Clara que gostava de ser como Ana, o homem da casa que gostava que a Ana gostasse dela, que lia em revistas a opinião dos psiquiatras sobre a normalidade do amor entre mulheres, a Clarinha que queria ser mais mulher. 

 Há que falar de Clara, mãe de duas crianças, que vive com o marido na casa dos sogros, que não está mais em Cascais, que foi com a irmã a uma cave em Algés, antes desta ir para Itália e desaparecer da vida deles. A Clara que aparece no conto no momento em que se revela essa noite escura. Não é mais Clarinha, não mais a Maria Clara é o homem da casa, Clara, a sombra que nos sussurra como tudo poderia ter sido bom se tivesse sido assim e que no final nos deixa com a dúvida se alguma vez saíremos dessa noite escura.


 Em jeito de conclusão, este Não entres tão depressa nessa noite escura é uma narrativa poética que me ia deixando fisicamente cansado, mentalmente esmagado e no entanto envolto numa radiância. António Lobo Antunes não o escreveu para os fracos de espírito, nem para quem começou agora a perceber que ler é mais do que articular palavras. Esta obra terá de figurar em qualquer discussão sobre a magnum opus do seu autor.

Monday, May 21, 2012

A Vida Sexual de Catherine M - Catherine Millet

 
"O desejo exasperado é um ditador ingénuo que não acredita que possam opor-se-lhe ou sequer contrariá-lo.", Catherine Millet in A Vida Sexual de Catherine M.

Lançado em formato de livro de bolso, numa parceria entre a ASA e a FNAC, "A Vida Sexual de Catherine M", da jornalista francesa Catherine Millet, acabou por ser o mais bem sucedido exemplar dessa colecção. Pode haver vários motivos para tal. No que a mim diz respeito, lembro-me de ter adquirido a terceira edição da obra, poucos meses após esta estar disponível. Li... Corrijo, comecei a lê-lo pela primeira vez nessa altura, ainda com vinte Primaveras incompletas. As expectativas para o livro saíram totalmente goradas, não correspondidas, senti que foi dinheiro mal empregue.

Vários factores estariam na base dessa desilusão. Um livro que tem por título "A Vida Sexual" de alguém e que causa alguma celeuma no seu país de origem, não deve ser um livro que prime por pasar uma visão polida, idealizada e púdica, digna de ser partilhada num almoço ou jantar de família. Ou um jovem adolescente assim o pensa!

O factor de choque nesta obra parece que incide não no vocabulário utilizado, não nos relatos descritivos, mas sim na essência do que eles passam. Não é o que diz, mas sim o que não diz que choca na obra. Choca certamente o despudor com que uma figura pública torna pública a sua intimidade, desde as primeiras experiências adolescentes até uma vida adulta recheada de orgias e experiências menos ortodoxas. Só que tudo faz sentido, tudo é parte de um processo, tudo é crescimento e aprendizagem, uma procura da identidade da autora.

O tom da escrita é o de balanço, introspecção. O tom que se usa quando sentimos que parte de nós chegou ao destino e nos propomos a ver como foi a viagem. Funciona, o livro, como balanço ou como exercício de sofá de psicólogo! Uma expedição arqueológica a episódios do nosso crescimento que nos ajudam a perceber porque somos assim, como chegámos onde chegámos. O livro poderia facilmente ter outro título: "A Descoberta Sexual de Catherine M.".

Nesse processo de descoberta, a autora acaba por colocar em planos distintos a sua sexualidade e os seus relacionamentos emocionais. Há, ao longo do livro, uma clara distinção entre ambos, uma distinção que chega a roçar o sobre-humano, uma distinção e um leque de ocorrências que parecem saídas de um filme pornográfico de baixo orçamento, que levam o leitor a questionar-se se não estará a ler uma versão fantasiada dos factos. E isso choca!

Esse é, parece-me, o principal factor de choque no livro. O facto de ser possível colocar em planos distintos a vida sexual e a vida emocional, apesar de se tocarem, vai contra o nosso desenvolvimento e choca. O facto de haver a posibilidade, mesmo que remota, de aqueles factos serem reais, expõe-nos como hipócritas, como criaturas que lutam contra a sua própria natureza. Que o faça numa linguagem simples, sem abusar do calão, mas não se coíbindo de chamar o caralho, o cu, a cona ou os colhões pelos nomes que todos usamos quando falamos, apenas reforça esse sentido de choque.

Haverá quem queira odiar o livro pela explicitude que não tem e acabará a odiá-lo por se recusar a cair no banal, no pornográfico. Por outro lado, o público mais imaturo, o público das vinte Primaveras, acabará por odiar o livro por não ser suficientemente pornográfico. Para esse público o livro não lhes dá nada de mais, para esse público há uma panóplia de outras ferramentas. É por isso que este é um livro que deve ser lido, preferencialmente, por gente madura: quem não se conseguir chocar com o livro e o achar banal, provavelmente ainda não tem quilómetros de estrada suficientes para ler o que não está escrito. Só uma audiência madura conseguirá notar a fina linha que na obra separa as vicissitudes e o sofrimento das alegrias vividas, porque a forma de a autora ultrapassar umas e saborear as outras, é em camas, ao ar livre, com um parceiro ou com vinte. É polémico por expôr uma pessoa. E todos somos humanos...

Sunday, May 6, 2012

Pai Natal subcontrata Coelhinho da Páscoa


 Não sou particular adepto das figuras no título, mas a piada era tão fácil de fazer que não resisti a usá-los!

 Este tópico visa contar a conclusão da saga da encomenda à Saída de Emergência (confirmar em Onde fica a Saída de Emergência).

 Três dias após o referido tópico escrevi à editora o email que abaixo transcrevo (falta de acentos e outros sinais gráficos, novamente cortesia de um teclado em estrangeiro):

Reparei há cerca de uma semana, no meu perfil do vosso site, que a encomenda em epígrafe se encontra com o estado de "enviada".

Gostava que me fornecessem os detalhes da expediçao, para que eu pudesse ir aos correios da minha localidade indagar sobre o paradeiro da mesma, uma vez que até ontem nao me havia sido pedido para a levantar.

Face ao arrastar da situaçao, gostava também de alguma celeridade na resposta.
Atenciosamente,
[O meu nome]

 Ou este período do ano é menos movimentado nas caixas de correio, ou por esta altura já há alarmes para quando entra uma mensagem minha! Digo isto porque no próprio dia (e nesta fase isto para mim já era motivo de surpresa) recebi a resposta, conforme se transcreve:

Caro [O meu nome]

Estamos a falar de uma encomenda bastante antiga.

Efectue nova encomenda com os mesmos títulos.
Se for um caso em que na altura existisse uma promoção especial efectue a mesma via este e-mail ou natacha@saidadeemergencia.com
Atentamente
Marta Lima 
 Ora bem... Nesta fase fiquei a pensar que para lá de publicarem, naquela editora vivem a ficção que publicam. Será que ninguém me podia ter dito isto antes? Então, se a encomenda é antiga, para que serviram todos os outros emails? Meio abananado decidi não responder imediatamente. Aliás, nesta fase ponderei mesmo se havia de ir em frente com a encomenda. Deixei passar o fim-de-semana e na segunda-feira, mais calmo, decidi refazer a encomenda e enviei o seguinte email, quer para a senhora Marta, quer para a senhora Natacha (porque nesta fase o ideal era mesmo aumentar as probabilidades de alguém ler o email):

Cara Marta,

Permita-me desde já manifestar o meu desagrado por todo o tratamento de que fui alvo por parte da vossa editora, desde os longos tempos de resposta até à constataçao de que, passados três meses, aparentemente a encomenda que realizei nao só nao foi tratada como, quer-me parecer embora nao o possa confirmar, ignorada. A isto pode-se acrescentar informaçao aparentemente falsa uma vez que, como consta do meu perfil no vosso site, a encomenda já foi enviada quando parece-me que nem sequer empacotada foi! Caso tenha sido de facto enviada volto a pedir (pela terceira vez) que me forneçam os dados da encomenda para que possa tratar da situaçao junto dos Correiros.

Nao é o primeiro serviço de compras online que utilizo e com todos já tive problemas, mas o que os distingue do vosso é o cuidado colocado em querer resolver um problema e a vontade com que se esforçam por passar uma imagem de organizaçao, de seriedade e de profissionalismo, mesmo quando a falha nao ocorre do lado deles. Nenhuma destas características foram reveladas por parte da vossa empresa e terei de tirar daí conclusoes.
Apesar de tudo e após ter ponderado bem durante o fim-de-semana, decidi re-efectuar a encomenda. Como o livro que pedi ao abrigo da promoçao 2=3 nao se encontra na lista deste mês faço-o através dos contactos que me pediu. Segue abaixo cópia do seu contacto de 8 de Fevereiro, onde consta a encomenda realizada na altura. Em relaçao ao livro extra que se comprometeu a enviar, reconfirmo o interesse na obra [obra escolhida], de [autor da obra], conforme o comunicado a 27 de Fevereiro.
Esperando que esta nova encomenda nao padeça dos males da anterior, despeço-me cordialmente,
[O meu nome]
[cópia do referido email]

Mais tarde nesse dia recebi a seguinte resposta:

Caro [o meu nome]

A sua encomenda com o livro de oferta escolhido, mais o livro [obra escolhida], seguiu hoje com o código dos CTT: [código dos CTT]

Pode fazer o rastreio da mesma em www.ctt.pt
 Acho que os prazos falam por si, portanto segue abaixo a tabela retirada do site dos CTT (não coloquei as localidades, mas não é necessário para se perceber a aventura). A verdade é que em menos de uma semana recebi as minhas encomendas e ainda me pude dar ao luxo de a deixar a marinar dois dias nos correios.

Escusado será dizer que nunca mais compro um livro desta editora!

Monday, April 30, 2012

Fénix Fanzine nº1

 A pedido da equipa editorial, aqui fica a informação de que a fanzine Fénix já está disponível para encomenda. Para tal devem-se dirigir a este site.



 Na minha posse está já um exemplar as primeiras impressões dão de um exemplar físico de aspecto cuidado. Uma análise será publicada brevemente.

Saturday, March 31, 2012

Death of Kings - Bernard Cornwell


Bernard Cornwell revela-se como um autor que aproveita os espaços em branco que há na História para aí colocar os seus romances, tramas plenas de imaginação de mãos dadas com situações documentadas. Apesar de na sua generalidade a escrita ser magnética, o anterior volume das Saxon Chronicles (The Burning Land) havia sido um longo bocejo de alguma banalidade. Perguntei-me na altura se a vontade do autor em escrever estas narrativas sobre a formação de Inglaterra pelos olhos de um seu longínquo antepassado não se estaria a tornar um enfado e, quando comprei o mais recente volume (Death of Kings) , temi que pudesse ser um desperdício de dinheiro.

 Tal não foi o caso e Bernard Cornwell redime-se totalmente nesta obra desse pecado que foi o volume anterior! Com Alfred cada vez mais doente começam as manobras de bastidores para a conquista de Wessex. Os reinos Vikings reúnem tripulações para a vitória final e os reinos Saxões manobram nos bastidores para assegurar que estão na linha da frente da sucessão, todos eles ameaçando o sonho do soberano em unir todas as terras dos Saxões. Peça central de ambas as tramas é Uthred, o senhor da guerra que tem actuado como o Escudo de Mercia, e que neste volume assume a vontade de ser a Espada dos Saxões. Preso por votos de lealdade à irmã de Edward, descendente predilecto de Alfred ao trono, todas as facções vão tentar removê-lo das contas da sucessão.

 Pela sucinta descrição da obra dá para perceber que as grandes batalhas, imagem de marca de Cornwell pelo realismo visceral com que as descreve, não serão presença assídua nesta obra. Esse é precisamente o ponto mais forte! A obra que temos em mãos acaba por ser uma agradável mistura de intrigas e jogos de bastidores, sempre com o conflito do pagão Uthred com os beatos cristãos, com a dose certa de confrontos e que culmina com a muito aguardada grande batalha, para que então os adeptos mais tradicionalistas não se sintam defraudados.

 A narração é, como nos outros volumes, feita a partir das impressões de Uthred o que significa que o leitor vai tendo o desfiar das intrigas à medida que elas são reveladas ao personagem, ou à medida que o personagem as vai resolvendo. Sim, porque neste volume a idade começa a atingir Uthred, com ele a recordar alguns episódios marcantes e a perder um pouco a imagem de bruto que resolve todos os problemas com a espada.

 Death of Kings não representa a morte definitiva do autor, da série e muito menos da vontade dos leitores em lerem a sua conclusão , pelo contrário representa o início da sucessão de Alfred e com ela uma nova possibilidade para Cornwell empregar a sua pena a preencher os intervalos da História com batalhas apaixonantes e intrigas saídas de uma das mentes mais marcantes do panorama livresco actual.

Tuesday, March 20, 2012

Onde fica a Saída de Emergência?

Sendo comprador quase compulsivo de livros, o facto de residir no estrangeiro limita-me no que à aquisição de literatura em português diz respeito. No entanto, nas vésperas de me deslocar a Portugal para o período natalício, decidi fazer uma encomenda através do sítio da editora Saída de Emergência, uma vez que apresentavam um desconto de 40%, para lá da sua habitual promoção 3=2. 

Estávamos a 15 de Dezembro e contava com um pouco de sorte ter os livros pelo Natal, com algum azar, devido à época, contava trazê-los comigo quando, em meados de Janeiro, saísse de Portugal.

Por alturas da comemoração do primeiro mês da encomenda (13 de Janeiro), já fora do país, mas com viagem de regresso marcada para breve, o seguinte email foi enviado para webmaster@saidadeemergencia.com :
Tendo feito esta encomenda há aproximadamente um mês e nao tendo até ao momento recebido qualquer informaçao, ou volume, gostaria de saber o estado da encomenda e, caso tenha já sido expedida, quando o foi.
Agradecido.
(Erros de acentuação patrocinados por um teclado estrangeiro e um sistema que não reconhece o código ASCII para o referido caracter.)

Não me ocorre hoje porque escrevi para este email, mas uns dias mais tarde (18 de Janeiro) um comentário de um amigo deu-me a ideia de comentar a situação no mural do facebook da editora. Deixei um comentário e menos de 24 horas depois recebo a recomendação, por parte da editora, de entrar em contacto com eles através do email geral@saidadeemergencia.com . Acto contínuo, reencaminhei o anterior email e aguardei. Afinal, tirando o eclipse do webmaster a comunicação não parecia estar assim tão afectada.

A verdade é que algum salteador cibernético deve ter ficado com o email pois no dia 4 de Fevereiro, quando cheguei a Portugal, nem resposta nem livros. Por esta altura já começava a estar um bocado sensível à questão e o email que abaixo se transcreve dá para perceber isso mesmo.

Venho uma vez mais, após as comunicações que seguem abaixo, e tendo já passado quase dois meses desde que efectuei a encomenda, perguntar se vale a pena estar à espera que chegue a encomenda.

Atenciosamente,
(o meu nome)
Saí de Portugal dia 7 de Fevereiro da forma como entrei: sem resposta, sem livros e a desenvolver rapidamente anticorpos a esta editora. Como que adivinhando o meu estado (eu gosto de pensar que foi por isso), decidiram-se finalmente a dar resposta aos meus emails (até ao momento quatro) no dia 8 de Fevereiro.
Caro (o meu nome),
Foi-nos informado pela nossa colega Safaa, que existe uma encomenda sua que ainda não chegou a si,
Não sei porque razão, mas nenhum dos seus e-mails chegou à minha caixa de correio, no entanto estou ao seu dispor para resolvermos todos os problemas e compensá-lo pelo incómodo causado.
Entendo que a sua encomenda é nº ****** e que continua interessado na mesma certo?
A sua encomenda é composta por:
(tabela com a encomenda)
Gostaríamos de compensá-lo e enviar-lhe uma oferta de um livro à sua escolha
Atentamente
Marta Lima
"Eh pá! Finalmente uma resposta e ainda por cima querem-me compensar!" Pensei eu. Uma vez que não parecia haver limites ao livro à minha escolha achei por bem acautelar-me e respondi, no dia 9 de Fevereiro, da forma que segue abaixo:
Confesso que é agradável ter notícias. Sim, o interesse mantém-se. O livro à escolha seria um qualquer?

Cumprimentos,
(o meu nome)
Neste ponto, quem conseguiu acompanhar a saga até aqui já se deve estar a rir do facto de eu responder em tom de pergunta. Na altura a felicidade era tanta que eu devo ter esquecido por instantes o facto de que tudo o que envolve respostas pela parte da editora ser lento e demorado.

Saltemos para o contacto seguinte. 27 de Fevereiro (tempo desde o último contacto: 18 dias; tempo desde a encomenda: dois meses e 12 dias). Remetente: eu mesmo, destinatário: marta@saidadeemergencia.com .
Boa tarde,

Gostaria de saber novidades sobre a troca de emails que segue abaixo, um vez que passaram já sensivelmente duas semanas e meia e nao recebi nenhuma resposta ao meu contacto.
Sem mais de momento,
(o meu nome)
A resposta chegou no próprio dia e lia:
Caro (o meu nome)
Indique-nos então o livro que gostaria de receber, será o que desejar.
Atentamente
Marta Lima
Esclarecido, respondi no dia seguinte de forma curta:
Poderá entao ser o (título do livro) de (nome do autor). 
Este foi o último contacto que tive com a editora. Na semana passada fiz uma encomenda de livros através de um serviço de vendas sediado no Reino Unido. A ocasião lembrou-me que tinha algo pendurado e até calhava bem porque 15 de Março representa exactamente três meses desde que a encomenda foi feita. Na minha área de utilizador a encomenda está como enviada. Os mais atentos notam como o verbo enviar e receber se referem a dois actos distintos. Por esta altura eu próprio começo a notar essas diferenças...

 A título de curiosidade, a encomenda do serviço baseado no Reino Unido (sete livros) foi expedida na sexta-feira (24 horas após a encomenda) e chegou hoje, terça-feira (5 dias, com um fim-de-semana de permeio) a minha casa.

Wednesday, March 14, 2012

Fénix Fanzine - Pedido

Enquanto a modorra se instalou por estas bandas, surgiu um pedido de malta amiga. Segue abaixo o texto como chegou à gerência:

A Fénix procura colaborações sobre a temática feminina no fantástico.
Desde os estereótipos femininos na chamada fantasia épica, à quase ausência de escritoras femininas a laborarem no género da ficção científica, passando pelas "polémicas" como a fraca representação feminina nos prémios e nos painéis de convenções do género, estamos interessado em todos os pontos de vista para um número especial da Fénix quase inteiramente dedicado a esta temática.
Além das submissões queremos apreciar ainda artigos de escritores de reconhecido renome nacional e internacional que serão, em devido tempo, comissionados.
O prazo final para submeter ensaios, críticas, artigos ou contos termina em 1 de julho do corrente ano. Os textos devem vir de preferência num formato universal (doc, rtf, txt) sem nenhuma particularidade de formatação especial indicativa. Os manuscritos devem ter entre as 2000 e as 10000 palavras.
O email para submissões é ez.fenix@gmail.com
O link do blog é este: http://fenix-fanzine.blogspot.com/
Desde já agradecido pela vossa atenção,
Abraços

 Entretanto estou a magicar participar com uma opinião sobre a presença feminina n' A Roda do Tempo.

Friday, February 17, 2012

Sara Serpa, Bimhuis, Amsterdam, 10 de Setembro

Diz-se que as primeiras vezes não se esquecem e dificilmente esquecerei o meu primeiro concerto Jazz. Para começar, num país longínquo ter a possibilidade de presenciar um artista conterrâneo, não é uma oportunidade que surja frequentemente. Por outro, todo o cenário em que decorreu o concerto proporcionou um daqueles momentos únicos, que só os espectáculos ao vivo proporcionam, mas sobre isso falaremos mais adiante.

 O dia esteve de calor e a prometer trovoada e a tarde acabou com umas bebidas frescas a ver o sol esconder-se, por entre nuvens de trovoada, na esplanada do Muziekgebow em Amsterdão. No anexo, a Bimhuis, uma das salas míticas do Jazz europeu (hein, não percebo e já ponho rótulos!) ia tocar nessa noite a artista portuguesa Sara Serpa. Não se pode dizer que a sala estivesse cheia, mas apresentava-se bem mais de meia. O cenário esse era todo ele impressionante. Construída em vidro e apresentando cortinas, era possível descortinar uma via rápida, uma linha de electrico, as linhas de comboio que saem de Amsterdão Central e ao longe as aeronaves que se aproximam do aeroporto de Schiphol. Qual a importância deste enquadramento? Para começar o álbum que Sara Serpa trazia na bagagem dava pelo nome de Mobile e que melhor enquadramento para um álbum de viagens do que toda uma paisagem que se mexe e evoca movimento?

 Apesar de evocar movimento o álbum remete para a literatura de viagens. O mesmo foi sendo comunicado pela cantora à medida que apresentava as músicas. O concerto em sim começou por uma viagem suave e em ritmo moderado, à medida que a noite avançava assim íamos sendo embalados pelo suave ondular de Sara Serpa e o seu quinteto. Se algo se pode dizer da primeira parte do espectáculo é que foi apresentado num registo um pouco calmo, colocando os pés com cuidado e um pouco a medo. Ao intervalo a trovoada que estava lá fora prometia contrastar com o ambiente acolhedor do lado de dentro, mas tudo iria mudar para a segunda parte. Conhecendo melhor a casa e tendo sido já apresentada à multidão, Sara Serpa trouxe energia na voz para puxar pelo quinteto e até os elementos fizeram por querer estar à sua altura. As nuvens, invejosas de lhes ter sido roubado o protagonismo, decidiram acrescentar a todo o cenário em movimento lampejos de raios e relâmpagos. O cenário era agora simplesmente de uma beleza indescritível, com os relâmpagos a iluminarem todo o cenário de apresentação de Mobile, com investidas por trabalhos antigos e até mesmo um poderoso fado.

 A distância não me permite detalhar quais as músicas cantadas e tocadas, o que guardarei para todo o sempre é o ressoar da voz de Sara Serpa, que fez inveja aos deuses das trovoadas e abrilhantou o final de tarde.

Friday, January 20, 2012

Is Belief in God Good, Bad or Irrelevant - Greg Graffin e Preston Jones

 O título do livro é feito em tom de pergunta, mas quem entrar neste livro à espera de respostas arrisca-se a sair de lá desiludido. Essa incapacidade, ou falta de vontade, em dar respostas é um dos pontos fortes do livro. Greg Gaffin é vocalista da banda punk Bad Religion e tem um mestrado em geologia, um doutoramento em biologia e ateísmo militante e assumido. Preston Jones é doutorado e professor em história, cristão e apreciador de Bad Religion. Este livro dá-nos a correspondência entre ambos ao longo de um conjunto de anos, em que falaram das suas visões religiosas, de como estas se manifestam no seu dia a dia (o dia a dia dos Estados Unidos entenda-se). 

 Acima de tudo, este livro é uma visão moderna sobre o debate entre crentes e não-crentes e um apelo ao pensamento livre e sem amarras. Não é um livro que procure responder ao título. Essa resposta deve-a procurar o leitor.

 Findos os argumentos e testemunhos somos ainda confrontados com uma série de perguntas provocadoras, que complementam na perfeição o livro, podendo quase que torná-lo livro de leitura obrigatória em aulas de filosofia.

 Um óptimo início de ano de leituras.


Thursday, January 19, 2012

Optimus Alive 2011

 Como disse um escriba da revista Time Out, um dos pontos fortes do Alive é que está mesmo à porta de casa. Ora, ter um dos festivais com melhor cartaz à porta de casa é óptimo e portanto lá me pus a caminho de Algés.

 Ia com vontade de ver Xutos e Pontapés, dar um pulinho ao Coreto da Luta, espreitar Iggy and the Stooges, ver Foo Fighters e ainda correr para apanhar o set de Teratron. Acho que ainda havia para aqui mais uns quantos espectáculos para ver, mas a qualidade das bandas que realmente vi fez esquecer o que tinha lá ido fazer.

 A abrir a tarde (a abrir... a minha!) os Xutos. O chamado valor seguro, em dia de regresso de Zé Pedro aos palcos, o alinhamento foi composto por algumas das mais aceleradas e um passeio pela Avenida da Memória. 



 Com o fim de Xutos havia a possibilidade de dar um pulinho ao Coreto da Luta, onde os Homens da Luta aguentavam um animado espectáculo de visita ao álbum "A Luta Continua". Animado é a palavra que define o momento, pois até alguns dos mais trombudos espectadores lá soltaram o seu sorrizito.



 A dada altura fazia-se tarde para conseguir um lugar onde pudesse assistir confortavelmente (leia-se, sem necessitar de um bom par de binóculos) ao concerto de Foo Fighters. Pés ao caminho e uma bifana para a viagem (já apertava a fome) que ainda deu para assistir ao final da actuação de Iggy and the Stooges. Para quem tem o historial de abusos que tem, Iggy é um péssimo anúncio aos efeitos que as drogas (nas suas variadas variantes, passe o pleonasmo) podem ter nas pessoas. 

 A condição física de Iggy no entanto não amedrontou Dave Grohl y sus muchachos. A actuação de Foo Fighters terá sido porventura um dos mais impressionantes concertos a que já assisti. Foram quase três horas de energia pura a ser debitada, quase três horas de saltos e correrias, de gritaria e de suor. Arrisco dizer que perdi um quilo ou dois nos momentos em que, levado pela música, deitei os anos para trás das costas, fui para a molhada e sai de lá com uma dor nas mesmas!



 Para a ceia, uma sandes ao som de Bloody Beetroots. Um som electrónico altamente recomendável a fechar em beleza uma noite feita de sonoridades variadas e um desejo de olhar para o cartaz de 2012.


Tuesday, January 10, 2012

Amon Amarth, Melkweg, Amsterdam, 20 de Maio

Uma das bandas que há mais tempo sigo e aprecio, os suecos Amon Amarth, foram o segundo concerto de 2011. Na Melkweg (Via Láctea) em Amsterdão, o concerto não foi brilhante, mas encantou, como normalmente as primeiras vezes fazem. 

A grande falta de brilho no concerto deve-se, fundamentalmente, aos engenheiros de som que acompanham a banda. Aqui este ouvinte optou por uma das varandas que circundam a sala. O resultado foi que, onde brilharam os Black Dahlia Murder, os cabeças de cartaz eclipsaram-se miseravelmente. Como dizer então que o concerto encantou? Acontece que, farto de bombo e linhas de baixo, decidi ao fim de três músicas descer para o meio da molhada. Aí a magia aconteceu! A voz deixou de ser disforme, os solos de guitarra deixaram de ser movimentos de dedos sem sentido e as músicas, que só eram identificadas por ser nomeadas pelo vocalista, tornaram-se reconhecíveis.

Como foi dito, o facto de a decisão de mudar de ares ter sido tomada a tempo de mudar ainda a impressão do concerto contribuiu em grande parte para o encanto que este primeiro concerto do quinteto sueco fosse uma experiência agradável, mas a cereja que realmente fez com que o bilhete se pagasse sozinho foi a fabulosa mistura de três das suas mais fortes músicas (Victorious March, Death in Fire, Gods of War Arise, com as duas últimas a fazerem parte do meu leque de favoritas).

O público, apesar de contido, reagiu bem à banda, criando uma atmosfera agradável. A banda, com álbum novo na bagagem, não se inibiu de o mostrar. Um bom concerto, que deixou vontade de assistir a outros, mas isso é para ser contado mais tarde.



Monday, January 2, 2012

O País tem (de facto) uma dimensão diferente da crise que o varre.

 O Fantasporto decidiu promover um concurso literário. Até aqui é apenas um evento cultural a querer diversificar. Claro que um bom concurso com a chancela de um marco cultural não seria um bom concurso se não desse azo a azias e alvoroços póstumos.

 Ora depois do sururu que a escolha deu, entrei no ano a saber que:

Um grupo de independentes decidiu promover o Concurso de Contos de Ficção Científica –rejeitados do Concurso de Contos de Ficção Científica Fantasporto 2012, tendo em conta que foram mais de cem autores, de quatro países, espalhados por três continentes que submeteram os seus trabalhos, e pelo facto de apenas seis deles irem ver os mesmos publicados, concluímos que seria um prejuízo maior o desaproveitamento de noventa e quatro trabalhos, trabalhos esses, um bom número deles pelo menos que em mais que um local foram considerados de qualidade acima da média, pelo que se pretende assim resgatar os melhores do anonimato (...).

 (Conforme lido no, criado para o efeito, blog Gaitzetsi.)

 Com tal parágrafo introdutório, tive mais uma confirmação que a dimensão da crise global, tem em Portugal reflexo noutras actividades. Normalmente recomendo umas águas minerais ou sais de fruto para quem sofre deste mal. Como estamos a recuperar do Natal e Ano Novo apenas posso especular que para as bandas donde se escreveu tal prosa, há muito se encontram esgotadas...

Sunday, December 25, 2011

Roger Waters, The Wall - Arnhem, 8 de Abril

 O álbum The Wall é um dos meus preferidos. Arriscaria mesmo dizer que não é um álbum, é o álbum. Toda a história que Roger Waters criou pode ser lida à luz de várias interpretações. Soube desta tour ao ler a crítica do concerto de Lisboa e rapidamente procurei as datas na Holanda e, face às três possibilidades, marquei bilhete para a primeira noite de espectáculos.

 A organização holandesa foi exemplar e o facto de começar a minha apreciação por esse ponto deve-se ao facto de não estar habituado a comboios especiais fora de horas e a autocarros para levarem as pessoas de e para o local do concerto. No caso o Gelredome, estádio do Vitesse.

 Quanto ao concerto propriamente dito, consistiu no desfilar das músicas do álbum, acompanhadas de um alucinante espectáculo cénico, desde filmes vários à épica construção do muro que dá o nome ao espectáculo, cuja simbologia se transpõe para a segunda parte do espectáculo, em que a banda e o artista se encontram barrados do público por ele.

 Roger Waters começa a acusar um pouco a idade e faltou, nos instante iniciais, alguma energia que foi aparecendo com o decorrer do espectáculo.

 No cômputo geral a noite foi muito satisfatória e demonstrou que algumas obras não estão destinadas a ficarem presas na época em que são feitas. Na plateia misturavam-se a geração dos 70 com os filhos e, acredito que, alguns netos!



Friday, December 16, 2011

On The Road - Concertos de 2011

 Neste espaço dedico-me muito aos livros que leio, um pouco aos filmes que vejo e quase nada à música de oiço. Com o aproximar do fim do ano, quando todos começam a fazer listas de melhores do ano e afins, comecei a pensar quais os melhores concertos em que estive.

 É difícil dizer que um concerto me tenha marcado pela negativa. Sou um adepto da música consumida ao vivo e  apenas lamento que as bandas de que gosto não actuem mais pelas minhas paragens. 2011 no entanto foi um bom ano! Claro que tive de me fazer ao ar e à estrada e esse é o ponto positivo de 2011. O facto de ter podido fazer o que não está ao alcance de muitos: viajar e ir a concertos.

 Arnhem, Amsterdão, Lisboa, Amsterdão, Zoetermeer, Almada, Copenhaga e novamente Amsterdão foram as paragens de um circuito que contou com rock, metal, jazz e blues. Nos próximos tempos vou tentar fazer um apanhado do que cada concerto foi individualmente, tentar trazer ao de cima o que me ficou de cada concerto. Até lá deixo abaixo alguns excertos retirados da net.















Tuesday, December 6, 2011

Citando Lobo Antunes I

"(...) a prova que o meu pai é idêntico a nós é que se viesse dos pobres não o operavam, tratavam-no num cubículo sem repararem nele e o meu pai cercado de besouros
 -Gosta de viver assim pai?
a desamarrotar-se amarrotando-se mais
-Bem hajam meninas"

Monday, November 28, 2011

2011 - Iced Earth - Dystopia


 Os Iced Earth nem figuram na minha lista de bandas preferidas. Falta-lhes um certo virtuosismo que compensam com atitude. Claro que um adepto de música punk a falar de virtuosismo corre o risco de passar por cínico. A diferença é que em Iced Earth falta uma certa velocidade característica da música punk.

 Este novo álbum, com novo vocalista (desde 2002 que andam em busca de cordas vocais à altura) traz-nos um pouco mais do mesmo estilo de acordes secos e pesados alternados com baladas, tudo servido em velocidade degustativa. A voz do novo vocalista alterna momentos em que nos lembra porque gostamos de ouvir Iced Earth (Days of Rage poderia  perfeitamente pertencer à Dark Saga), com outros em que claramente estamos a ouvir outra coisa qualquer (End of Innocence). Já Boiling Point entra para a galeria dos momentos altos do disco, soando vagamente a Demons and Wizards. V passa por uma aceitável música de Iron Maiden (com um ataque de laringite).

 Talvez este Dystopia precise um pouco mais de tempo para amadurecer, ou talvez se safe melhor ao vivo, no final as faixas que mais se destacam acabam por ser as de bónus. Os habitués gostarão, mas não será álbum para conquistar novos adeptos.

Sunday, November 20, 2011

Vollüspa - antologia de contos do fantástico! (editor Roberto Mendes)

 Há autores que se notabilizaram por escreverem contos. Textos concisos em que o ênfase se coloca nuns aspectos e se deixam os restantes ao cuidado da imaginação do leitor. Compilem-se uns textos num só volume e inevitavelmente salta à vista que uns apelam mais ao leitor do que outros. Uns falam com partes de nós que não sabíamos ter, outros passam por nós como se não os tivessemos lido. Uns são paredes brancas, outros quadros impressionistas, com tantas manchas que formam uma imagem. Multiplique-se o número de autores e o concurso passa a ser entre estilos de escrita pessoais.

 Vollüspa, a aguardada antologia a cargo de Roberto Mendes, pretende assumir-se como meio de divulgação para novos autores no campo da Ficção Científica (FC) e do Fantástico (F). Estes rótulos são bonitos e servem para arrumar livros na prateleiras das livrarias, mas pessoalmente prefiro rótulos que vão de "bem escrito" a "desperdício de papel". Enquanto mistura de autores, Vollüspa consegue colocar contos em todo esse leque de rótulos.

 Escrevendo enquanto desconhecedor do género (tenho umas noções de Fantasia, que adquiri com Tolkien e Jordan, e de FC, que fui buscar a coisa como Dick e Matheson), penso que Vollüspa se sai bem. Mais do que meio de divulgação de autores, assume-se como uma interessante porta de entrada para novos autores.

 Sai-se bem, mas não sem reparos! Por exemplo, a compartimentação dos contos em géneros. Existem três secções: Ficção Científica, Terror e Fantasia. Na minha opinião há contos de FC que cabiam em Fantasia ("Pequeno guia do Céu, de Tristan Sapincourt", de Afonso Cruz e "Eternidade" de João Ventura) e vice-versa ("Uma questão de lugar" de Pedro Ventura). Quanto à secção de Terror, a única coisa de realmente aterrorizante é a forma como os textos se prolongam sem chegarem a lugar algum. Talvez "Enquanto Dormias", de Nuno Gonçalo Poças, pudesse ter lugar na secção de Fantasia, livrando-se das expectativas que o rótulo Terror coloca. Volto a frisar neste ponto que estou longe de ser um especialista de taxonomia literária.

 Onde sou especialista é em coisas que me arrepiam os cabelos da nuca e nesse capítulo o prémio "desperdício de papel" vai inteirinho e em exclusivo para Carla Ribeiro. Os diálogos mais forçadamente artificiais de toda a antologia e um uso e abuso de frases iniciadas por "E" (de todos os usos apenas um - um - não me causou arrepios na espinha) fizeram com que a leitura deste conto roçasse a vontade de não acabar de o ler e passar ao seguinte. Quanto ao uso do "E" para começar frases, há formas de o fazer, há ocasiões em que traz maior expressividade ao texto. A forma como Carla Ribeiro o faz indiscriminadamente demonstra que não domina essa técnica. Caso queira aprender, leia um bocadinho mais de jornais (recordo-me assim vagamente que entre o editorial e as colunas de opinião do DN de dia 17 de Novembro há variados bons exemplos) ou leia os contos "A Máquina" (Álvaro de Sousa Holstein) ou "Genesis-Apocalipse" (Roberto Mendes) desta mesma colectânea.

 A culpa, no extremo, até pode não ser da autora. A preocupação de escrever com a frase curta, tão típica da literatura anglófona, pode estar na origem. Essa preocupação também é visível nos contos de Afonso Cruz, Roberto Mendes ou Joel Puga, mas nestes casos sem que a minha sensibilidade de leitor saia afectada.

 Ao nível de outros contos, "Vermelho" (Regina Catarino) está muito bem escolhido como conto de encerramento para a colectânea. Uma ideia de tremenda simplicidade, executada de igual forma e que deixa no leitor uma sensação de uau. Ao nível de trabalho editorial, de resto, apenas duas notas: o conto de Afonso Cruz pode ser muito bem executado, mas requer uma segunda leitura. Para conto de abertura fica um bocado pesado e penso que o próprio conto ganhava em estar enquadrado por contos do gabarito dos de Luís Filipe Silva ("A queda de Roma, antes da telenovela") e João Ventura ("Eternidade"), duas das mais fortes entradas da colectânea. A separação destes dois teria um efeito benéfico nas restantes entradas, trazendo maior homogeneidade ao nível dos contos. Porque estes podem fazer os outros empalidecer! Nos outros contos, é bem visível a linha que vai d' "A Máquina" (Álvaro Sousa Holstein) até a "A Sala" (Marcelina Gama Leandro). A semelhança de temática e cenário é tal, que podemos perfeitamente imaginar  a máquina dentro da sala! Sai por cima, quando comparados, o sentimento de folia da divisão contra o saudosismo vagaroso do objecto.

 Os contos que mais me encheram as medidas estão quase a abir e quase a fechar. Contos muito díspares na temática e na forma, mas igualmente satisfatórios na forma como me realizaram enquanto leitor. "Natal®" (Carlos Silva) é um conto curto que nos traz a época festiva num futuro (talvez não muito) distante e simultaneamente uma reflexão sobre a condição humana e penso que até o mais sorumbático dos leitores esboçará um sorriso com o final. Já "Uma questão de lugar" (Pedro Ventura) arrasta-se sem que o leitor se sinta aborrecido, desenvolve as personagens num curto espaço, conta-nos uma história e a páginas tantas o leitor esquece-se que está a ler um conto. Mesmo o final, que pode ser um pouco abrupto para alguns, não parece caído do céu. Pedro Ventura pega no leitor ao colo e leva-o por uma agradável experiência de leitura. 

 No global Vollüspa sai-se bem como uma porta para a literatura de género que parece querer recuperar algum espaço em Portugal, com um leque variado de autores e com alguns toques de qualidade de escrita misturados com a maturidade de quem sabe que escrever não é apenas por palavras umas a seguir às outras.


PRÉMIOS:

"Vale a pena ter a Vollüspa só para ler isto":
-"O Pequeno Guia do Céu, de Tristan Sapincourt", Afonso Cruz
-"Natal®", Carlos Silva
-"Uma questão de lugar", Pedro Ventura
-"Vermelho", Regina Catarino

"Valor Seguro":
-"Eternidade", João Ventura
-"A Queda de Roma, antes da Telenovela", Luís Filipe Silva
-"A Sala", Marcelina Gama Leandro

"Preciso de Curar Insónias":
-"O Acorde das Almas", Carina Portugal
-"Enquanto Dormias", Nuno Gonçalo Poças
-"A Máquina", Álvaro Sousa Holstein

"Desperdício de Papel":
-"A Queda", Carla Ribeiro

Wednesday, October 26, 2011

5OHKUBO - Almadacore

 Os 5OhKubo, banda fundadora do Almadacore, música veloz e positiva, venceram o 7 º Concurso de Música Moderna da Câmara Municipal de Almada. Ficam abaixo o clip homónimo e o clip disponibilizado pela CMA, porque o link para o MySpace está ali ao lado desde que a página abriu.


Friday, October 14, 2011

The Legend of Sigurd and Gudrún - J.R.R. Tolkien (editado por Christopher Tolkien)



Ao olharmos a vida e obra de John Ronald Reuel Tolkien, notável filólogo inglês, rapidamente percebemos que para ele a sua ciência implicava algo mais do que estudo, implicava produção, implicava adaptação. Essa sua vontade de produzir, de reinventar, tem permitido que muitos anos após a sua morte ainda nos sejam disponibilizados pelos seus herdeiros, escritos completos ou inacabados, com notas e correspondência do autor, que nos ajudam a decifrar melhor o homem, o autor e o estudioso.

Tolkien nunca negou o fascínio que os mitos e lendas nórdicas exerciam sobre ele, considerando o sucesso da sua obra O Senhor dos Anéis algo surpreendente, por se tratar de uma adaptação do mito do anel dos Nibelungos. Todo esse fascínio revela-se noutros pontos da sua obra, quer literária, quer académica.

Como estudioso que não sou, arrisco dizer que The Legend of Sigurd and Gudrún será uma obra que lhe dá alguma paz de espírito e que simultaneamente constitui um elogio a todos os skaldene que alguma vez abriram a boca. No entanto, como exercício fundamentalmente académico, não será um livro facilmente apreciado por quem não se interessa pelo tema de mitos e lendas nórdicas.

A apreciação da obra sobre ainda outro revés para quem desconhece a poesia nórdica. Pessoalmente estou longe de ser um conhecedor. Conheço alguns versos da Edda, em norueguês moderno, e trechos de sagas em dinamarquês. Não é um conhecimento profundo, mas o suficiente para perceber como embalam as palavras a fala do leitor, perceber qual a melodia que transpira, perceber como soa aquela poesia em redor de uma mesa, com o início de um estupor alcoólico, em noites de neve e gelo. Nesse aspecto a obra de Tolkien está muito bem conseguida. Não constitui uma tradução, antes uma adaptação a inglês. Não soa a um exercício forçado antes uma nova forma de ver, soa a algo que já conhecemos, mas que nos chega sob uma nova luz. Há ali uma sonoridade, um transmitir de sentimentos por parte das personagens que nos transportam para a cena descrita, como em tempos vozes vibrantes transportaram gentes geladas.

Enquanto leigo arrisco dizer que o livro será indispensável para académicos, um bom ponto de partida para curiosos, mas uma obra de sofrimento para quem não tem o mínimo interesse por mitos e lendas nórdicas. Incorre mesmo no risco de transmitir uma ideia errada do que é Tolkien.

Sunday, October 9, 2011

A Criada Zerlina - Hermann Broch



Uma das principais atracções do Festival de Teatro de Almada em 2009, A Criada Zerlina chegou-me através da Biblioteca de Verão do DN/JN em 2010. Esta obra, que sofre da mesma falta de cuidado na revisão das restantes da colecção, corresponde a uma boa leitura de Verão. É séria, sem ser maçuda; profunda, sem ser pesada e lê-se de uma penada, possibilitando leituras e releituras.

Quem é então a criada Zerlina? Zerlina é uma criada de família, que começou a trabalhar para a avó da sua actual empregadora. Como alguém que toda a vida trabalhou numa casa, conhece as histórias que se mostram e os seus bastidores e são esses bastidores que, numa tarde de Domingo, Zerlina partilha com A., hóspede na "sua" casa.

Essa narrativa leva-nos a conhecer melhor as próprias origens de Zerlina, através de um interessante exercício sobre a juventude pelos olhos de um veterano. Um belo exercício essencialmente sobre a memória, sobre lições de vida e amores de infância e de como nos moldam a idade adulta.

A escrita é claramente para teatro, havendo bastante voz activa e um foco que incide sobre as personagens em cena.

A criada Zerlina, não sendo um livro de fazer cair os queixos, consegue esboçar vários sorrisos e, ao virar a última folha, uma sensação de "deixa ler outra vez". Um livro, no fundo, para ser lido e relido.