Wednesday, November 20, 2013

A Ironia do Projecto Europeu - Rui Tavares



Rui Tavares tem o dom de aproximar pessoas da esquerda e da direita, nestes tempo de clivagem que vivemos. Odiado por uns e outros, as principais razões para esse ódio prendem-se com o seu comportamento aquando do recente naufrágio legislativo do Bloco de Esquerda. Só que Rui Tavares não tem sido incoerente consigo mesmo, não no seu desempenho enquanto euro-deputado. Nesse aspecto Rui Tavares é das poucas vozes que dentro de portas se dedicam a escalpelizar e a pensar as questões europeias.

Este livro, lançado no final de 2012, no auge da crise económica (sem sabermos bem onde estamos na crise política) que abala a Europa, é a sua visão sobre os acontecimentos. É pena, por um lado, que não haja uma figura da direita que se lhe junte, uma voz que fosse com ele em Portugal, o que Cohn-Bendit e Verhofstadt são na Europa e que levou à edição, quase em simultâneo do seu manifesto For Europe.

Na ausência de vozes sonoras a equilibrar a orientação ideológica, fica-nos portanto a voz de Rui Tavares, historiador de profissão e, até às próximas europeias, eurodeputado de vocação. Não um eurodeputado do estilo populista, na boa onda dos Farages desta vida, mas um dos que sentem a Europa. Como historiador que sente a Europa, Tavares dá-nos neste livro aquele que pode ser um óptimo resumo do que tem sido a construção europeia, as suas virtudes e as suas falhas, tudo de uma forma acessível, com uma escrita leve na forma e cheia no conteúdo, que nos faz chegar a meio do livro sem nos apercebermos do tempo a passar, e com a percepção clara de como nos falta saber tanto do mundo em nosso redor.

Nenhuma visão, por mais bem itencionada que o seja, consegue ser desligada das visões pessoais de quem a transmite. Rui Tavares consegue no entanto que as lições de história o sejam e que as suas conclusões pessoais o pareçam, para que o leitor não se confunda. E com isso mostrar que uma escrita ideológica não tem de ser uma escrita doutrinária. Depois de ler este livro eu quero saber o que pensa o outro lado, mas do outro lado ninguém fala.

É uma leitura, em vésperas de eleições europeias, fundamental para portugueses em Portugal e no estrangeiro (lembrar que malta emigrada na UE, vota onde mora), especialmente face ao clima de desinformação que nos rodeia. A verdade é que somos emprenhados pelos ouvidos que a culpa é "de Bruxelas", mas onde começa e acaba a culpa de Bruxelas, e qual das Bruxelas falamos? Não importa o quadrante político, este livro é de leitura obrigatória!

Wednesday, November 13, 2013

The Structure of Scientific Revolutions - Thomas S. Kuhn


A primeira coisa que me apraz dizer sobre este livro é que é um livro antitético: uma leitura leve muito pesada. 

Para um livro que representou uma pedrada no charco na forma como se interpreta a evolução da ciência, lê-lo passados 50 anos não tem o mesmo sentimento de revelação. Em grande parte porque o que ele contém foi interiorizado em sucessivas gerações de cientistas e aspirantes a tal. Não há, para quem tenha tido um ensino científico, um sentimento de ruptura, antes de se rever no que ele descreve. Provavelmente porque sempre foi assim e ele se limitou a constatar o que via.

A leitura do livro pede no entanto, para ser mais dinâmica, que se tenha algum conhecimento científico, nomeadamente ao nível da física, isto porque Kuhn, antes de ser um historiador era um cientista. Essa dupla formação deu-lhe certamente uma vantagem que outros seus contemporâneos não tinham e ajudaram a que ele conseguisse o tal sentimento de criar uma empatia com quem tenha passado pelos labirintos da ciência.

Que o livro tenha perdido o seu tom de nova teoria, sendo absorvido por todos e tornando-se no paradigma da evolução científica, perdendo com essa cristalização o seu carácter refrescante é provavelmente o maior triunfo da obra. Pena que com isso tenha de se remeter para a categoria da curiosidade histórica.

Thursday, October 10, 2013

A Gaiola Dourada

Setembro foi o mês de andar para trás e para a frente, o mês das férias, o mês dos amigos. Foi também o mês em que aproveitei para ver o fenómeno cinematográfico da época estival. Sim, desloquei-me ao cinema para ver A Gaiola Dourada.

Pretendia começar este comentário revelando alguma incredulidade sobre o facto de ser o fenómeno que foi. No entanto dois factores contribuiram, após alguma reflexão, para que esse espanto se afastasse.

O primeiro é que a atitude dos portugueses para com o seu cinema (e se fosse só isso...) fica traduzida pelo comentário que ouvi na fila para comprar bilhetes, e que passo a transcrever:

"-Podíamos ir ver aquele filme português - diz o filho.
-Para quê? - pergunta o pai - Isso qualquer dia dá na RTP e podes ver nessa altura."

Volto a frisar que o diálogo é verídico!

O segundo é que a este filme é filho de uma das grandes escolas, e certamente um dos mais pujantes mercados cinematográficos, senão do mundo, pelo menos da Europa. Escola e mercado justificam a qualidade do produto final. O público alvo deste filme francês é um público habituado a ter qualidade, quantidade e variedade.

Combinando a atitude depreciativa do público com todo um trabalho feito para entreter sem aspirar a grandes vôos, não será pois de estranhar que a Gaiola Dourada passe por um grande evento cinematográfico... em Portugal. (Isto mesmo excluindo uma certa histeria que se demonstra quando alguém de fora fala de nós.)

Confesso que me parece que o filme seja um bocadinho menos do que aquilo que fazem dele. Por outro lado, pode ser exatamente o filme que é preciso. Ou seja, aquilo que não passa de um filme banal do circuito comercial francês, daqueles que se fazem às pazadas, apenas para se ter uma tarde de Domingo bem passada, tem neste caso tem a particularidade de nos, enquanto figura colectiva, tocar e com isso nos levar a querer passar essa tarde numa sala às escuras.

Enquanto filme tem toda uma arquitectura, ao nível do guião, e toda uma fotografia que de facto não são usuais por terras lusas, desenhado como produto de entretenimento alcançável por todos, sem almejar a uma grande reflexão. Assim de repente, a coisa mais parecida que me lembro de ter visto foi A Bela e o Paparazzo, uma espécie de Notting Hill à portuguesa.

Ao desvalorizar o sururu que se fez em torno d' A Gaiola Dourada, não estou no entanto a desvalorizar o filme. Aquilo que em França é um produto de nível mediano, em Portugal passa por um produto de alto valor. Porquê? Bom, em primeiro lugar porque o valor do público está transmitido no comentário daquele pai, que eu citei ali em cima. Sem um público é impossível ter um cinema. De nada vale chorarmos o que não temos, quando não o temos porque não queremos. Quando se vai ao cinema para se ver a "prestação" da Soraia Chaves n' O Crime do Padre Amaro, um dos piores favores que se fez à obra de Eça, e se deixa às moscas O Barão, a única surpresa é ainda haver uns carolas a querer fazer filmes. 

Já no caso d' A Gaiola Dourada, o seu triunfo é ser precisamente aquilo que não pretende ser: um tratado de, chamemos-lhe assim, portugalidade. A Gaiola Dourada é o retrato de uma determinada geração de portugueses que fugiram à procura das oportunidades que não tinham em casa. Como tal há de todos os tipos, desde o português que abusa dos portugueses, retratado em pequena escala pelo dono do café, mas que serve de perfeita alegoria para outras situações mais... complexas, temos as gerações envergonhadas dos seus pais, mais envergonhadas do que o próprio meio em que se inserem, temos as coscuvilheiras, temos, no fundo, um pequeno Portugal que se mudou para os arredores de Paris e que guarda todas as virtudes de um Portugal pequeno em que era proíbido sonhar e ousar ser mais. Essa proibição está bem patente e vincada nas personagens principais, também elas bem alegóricas, da mulher-a-dias e do pedreiro, que quando lhes cai uma herança e uma promessa de regresso tranquilo a Portugal, o seu primeiro pensamento é "o que é que os outros vão pensar". É um filme de estereótipos e creio ser impossível qualquer luso-descendente dessa geração de 70/80 não ver ali os pais, os tios, uns primos, os colegas e tantos, tantos outros. É impossível aquela luta dos filhos para que os pais pensem em si não ser reflexo do que se passa em tantas e tantas casas onde filhos criados com acesso a cultura, com escola, com saúde, não tentem agora dar aos pais aquilo que estes se recusam em lhes oferecer. 

A Gaiola Dourada não pretende ser esta reflexão sobre como uma geração se castiga, não ousa sonhar, não ousa querer e ainda por cima divide-se entre os que tudo dão e os que tudo invejam. Nessa ausência de pretenciosismo reside o grande triunfo desta obra. Gil Vicente, pai do teatro português, tinha por lema ridendo castigat mores, a rir se castigam os costumes, e é nessa linha de representação que este filme desembarca. Sim, tem aquela cena no Douro, totalmente despropositada e escusada, mas nenhuma caricatura de portugueses ficaria completa, sem o afamado banquete na aldeia.

Friday, July 19, 2013

Doces Flagelações, Anónimo


A literatura de cariz erótico (ou pornográfico consoante o grau de moralismo) é algo que terá estado tão dormente quanto a vontade do ser humano em se excitar. Recentemente, no entanto, tornou-se um produto não só de consumo massificado, como até de um certo estatuto. Os mais desatentos poderiam pensar que tal se devia a um recém-descoberto interesse pelas obras de Miller, Nin ou outro autor consagrado. Infelizmente o motivo está abaixo, muito abaixo, da qualidade de escrita desses monstros sagrados.

Por outro lado, estas novas modas literárias tendem claramente para reinvenções da roda. Esse cariz de redescoberta tem a vantagem de fazer com que se descubram textos perdidos em prateleiras dos fundos que assim podem ver a luz do dia. Penso ser o caso deste Doces Flagelações, publicado pela 7 dias 6 noites. Penso porque denoto no livro uma certa ausência de ano de primeira publicação, ou título original, ou referências ao desconhecido autor, qualquer elemento identificativo que permita encaixar a obra temporalmente.

Face a comentários anteriores, poderá este livro ser um clássico esquecido? Dificilmente! Aliás, penso que consoante a interpretação que cada um fizer da dualidade erotismo/pornografia, este livro até poderá tender mais para a segunda do que para a primeira categoria, fugindo muito mais do virtuosismo sensual de Miller e estando muito mais próximo da narrativa libertadora de uma História de O, com este clássico a poder ser a obra que mais definirá a prateleira onde arrumar o livro em apreciação: quem olhar para o clássico de Pauline Rèage como uma obra erótica, então olhará da mesma forma para este livro.

Chamar no entanto nomes clássicos da literatura para a apreciação deste livro acaba resultar num chamar Boogie Nights para uma discussão sobre o "Fim de semana Lusitano": aquilo até se relaciona, mas só mesmo muito vagamente! No entanto, o facto de não estar escrito em troglodita faz com que uma comparação com o impulsionador da moda da literatura de "tau tau" seja infamemente injusta.

Quando digo que não está escrito para trogloditas relembro o comentário anterior que isto não é um clássico esquecido da literatura! É isso sim, uma obra que assume um propósito claro, diferente do de vender um número largo de cópias, e vai direito a ele assumindo que os leitores têm um cérebro plenamente funcional e que não são analfabetos. Exemplos disso é a forma como a adjectivação está reduzida ao essencial e a um bom uso de sinónimos de substantivos, que alternam entre os mais eruditos (púdicos mesmo) e os mais, chamemo-lhes "populares", com várias ocasiões em que a alternância se vai dando em crescendo com o estado de excitação dos intervenientes. Estas duas ferramentas de escrita acabam por evitar o uso de repetições excessivas, o que fazem deste livro uma obra muito fraca para jogos do tipo "um shot de cada vez que".

No que a personagens diz respeito, não há aqui grandes preocupações em dar profundidade às mesmas. Para quem acha que isso é um defeito, sejamos francos, face ao propósito da obra é uma virtude! (Pegando numa analogia anterior, será que o espectador de Fim de Semana Lusitano está preocupado com a profundidade das personagens? A quem respondeu que sim, curem-se!) Assim sendo, acabamos por ter praticamente uma personagem por capítulo da obra, todas residentes numa localidade da Inglaterra Industrial e a obra mais não é do que a forma como estas interagem umas com as outras para satisfazerem os seus desejos, desde os que recém descobertos a outros mais requintados com o passar dos anos, todos uma declarada afronta aos mais acesos discípulos da moral e bons costumes.

Essa afronta, o principal móbil da obra, está logo bem patente no acto de compra do livro, e o seu selo de "proíbida a venda a menores de 21 anos". Faz sentido. Mesmo à luz de uma sociedade que se quer e diz ser mais aberta, mesmo depois do porno-para-mamãs, este livro é para fazer mossa e ser lido às escondidas. De tal forma o é que me questiono mesmo se o autor anónimo será mesmo da altura do livro e não alguém bem mais contemporâneo, tal a forma como o livro consegue chocar as mais púdicas mentes e estimular as mais estimuláveis. A obra caracteriza-se por estar totalmente desligada de uma visão romântica. Aqui é só desejos e a satisfação dos mesmos, qualquer que seja o preço. Os moralismos e as reviravoltas sentimentais ficaram de fora e só perpassou o sentimento quase animalescos do prazer pelo prazer.

É pois um livro politicamente incorrectíssimo. Animais e excreções à parte, penso que muitos desejos mais desbragados encontram lá o seu capítulo, desprovidos de candura ou promessas de redenção. Não fará os leitores comprar mais dois volumes, mas é bem capaz de levar a releituras!

Thursday, June 13, 2013

Quando o Diabo reza - Mário de Carvalho


A melhor forma de começar a falar deste Quando o Diabo reza, de Mário de Carvalho, é retroceder trinta anos e falar sobre uma obra de outro Mário, esse Zambujal, e a sua Crónica dos Bons Malandros, porque no fundo esta obra é, por assim dizer, uma crónica de malandrinhos.
O paralelismo entre as obras está derramado sobre as escrita, desde os criminosos que falam como criminosos, como disse Ricardo Araújo Pereira, ao esquema rocambolesco com imprevistos de última hora. A única coisa que falta é a história dos personagens, mas ao contrário das personagens de Zambujal, aos criminosos de Carvalho falta-lhes história. Não que tenham muita. Facilmente se percebe que não há ali muita história para contar,  que não são vítimas das amarguras da vida, personagens trágicas, são apenas apologistas da malandragem, gente sem jeito para outras coisas, nunca ficando muito claro se por não quererem, se por não poderem. Ou dito de outra forma, onde Zambujal faz quase que uma apologia da malandragem, onde sentimos que podemos fazer amizade com os seus malandros, os malandros de Mário de Carvalho são gente que não queremos convidar para nossa casa desde o momento zero, ao momento final.
O centro da pequena malandragem de Carvalho é um velho. Um velho que se diz ser endinheirado apesar de nunca o sabermos e ficar sempre a impressão que a sua fortuna não será tão fortuna assim. Como velho que se diz ser endinheirado, num meio pequeno, esse velho é alvo do interesse de um grupo de meliantes e da própria família, que não se lembra dele até as contas começarem a chegar, até a vontade de comprar um carro ser grande, até... São esses malandros, nas palavras do autor, dois vadios, uma galdéria e duas irmãs, estas filhas do velho, uma que vive com ele, a outra que vive amarguradamente distante.
A narrativa decorre em Lisboa, com uma ligeira incursão aos arredores, mas pode ser num bairro qualquer onde haja uma igreja daquelas onde se paga o dízimo e que se especializam em pobres, porque os ricos vão para a outra (como a páginas tantas um dos vadios diz). Esta indefinição geográfica e a falta de história das personagens são o ponto em que as obras dos Mários, ambas narrativas da malandragem que facilmente se encontra nas esplanadas e ruelas de Lisboa, se afastam. Onde Mário Zambujal nos premiou com um romance curto, Mário de Carvalho brinda-nos com um conto longo.
Enquanto conto revela-se no entanto uma autêntica lição de como escrever. As personagens podem ser gente oca, mas não são vagas e indefinidas, a narrativa é bem estruturada e com um ritmo que encontra paralelismo na acção (de facto a fase inicial, em que se monta o palco para a farsa final, é de leitura um pouco mais lenta, mas torna-se mais fluída com o desenrolar da narrativa) e a escrita flutua com as personagens, sendo mais vadia com os vadios e galdéria com a galdéria, sem exagerar nem forçar. Ler este Quando o Diabo reza podia ser um acto de estar sentado numa esplanada a ouvi-los contar as suas aventuras e isso, essa arte de nos dar fatias da realidade que podiam ter sido vividas por nós, é uma sublime arte que merece ser apreciada.

Thursday, May 30, 2013

The Sandman - Neil Gaiman

Uma das leituras mais agradáveis que tive no ano passado foram os dez volumes de The Sandman (doravante tratado por o). No formato que é conhecido por novela gráfica, mas que ficaria melhor traduzido por romance gráfico, revelou-se uma daquelas obras que há muito mais que bonecada em livros de banda desenhada.
O facto de só agora vir falar de algo que li o ano passado, para lá de alguma preguiça que é visível no que não tem sido publicado, prende-se neste caso específico com o problema de falar das obras marcantes. O Sandman de Neil Gaiman é considerado uma das mais marcantes obras no capítulo das novelas gráficas, sentindo, nos meus círculos sociais, uma sensação de quase divino muito maior do que com outras obras.
O que senti ao ler esta obra é que dificilmente a narrativa poderia ser contada sem o suporte gráfico. Os desenhos acabam por ser muito mais do o suporte para a narrativa, tal como esta está num patamar diferente do de simples explicação para o desenho. O desenho é em si parte de como se conta a história. Há detalhes, mudanças de olhares, mudanças de roupa, subtilezas de discurso, que dificilmente se passam para o papel sem quebrar o ritmo da narrativa, sem recorrer a longas passagens narrativas. Nesta obra o mostra não contes (show don't tell) assume o seu explendor máximo porque não há a necessidade de dizer mais do que o essencial.


Ao nível da história fiquei também muito satisfeito. A narrativa está bem trabalhada, com uma mitologia própria que lhe confere credibilidade e é frequente darmos por nós a dada altura a olhar para personagens e a pensar "eu já vi esta em algum lado" e lá está ela, agora protagonista, numa escala menor um volume ou dois antes, ou vice versa. Face ao comboio de ilustradores (cada volume tem pelo menos três), esta atenção ao detalhe apenas valoriza mais a obra. E volta a introduzir uma subtileza difícil em texto corrido.

The Sandman, face ao foco que o ilumina, pode ser entrar em Neil Gaiman pela porta grande e correr o risco de não conseguir a mesma satisfação com outras obras. So que essa entrada gloriosa deixou vontade de ler mais e a pergunta com que fico é mesmo como o menino se sai na prosa!

Thursday, April 11, 2013

The Hobbit, An Unexpected Journey

Enquanto se espera pelo segundo filme da trilogia d' O Hobbit, deixo aqui aquilo que é a minha opinião sobre o primeiro filme, O Hobbit - An Unexpected Journey (Uma Viagem Inesperada, em português). Levantando um pouco o véu, algumas das queixinhas que serão aqui apresentadas irão, quase certamente, ser repetidas nos próximos filmes. O atraso, pese alguma ronha em escrever, deve-se fundamentalmente a uma recolha de argumentos esgrimidos em conversas por aí.
Nessas trocas de argumentos acabei por formular a páginas tantas uma pergunta que será o ponto de partida para esta opinião. A questão é: se alteras o sentido de uma obra aquando da sua adaptação, a adaptação mantém validade? 
Neste caso a pergunta faz (talvez estranhamente) sentido. Isto porque há duas formas de ver este filme: ou como a obra que dá origem a O Senhor dos Anéis ou como a prequela d' O Senhor dos Anéis. Podem parecer a mesma coisa, mas não o são. 
Como alguém que já leu as obras várias vezes e que conhece, mesmo que vagamente, o que levou a uma e à outra, encaro O Hobbit como "a obra que dá origem a" e não "a prequela" e isso traduz-se nas frustrações que trouxe do filme. 
Essencialmente, eu não acho que O Hobbit seja apenas um penduricalho, uma espécie de volume 0 d' O Senhor dos Anéis. Ao fim de 33% dos filmes, perto de 55% do livro estará adaptado, e aqui questiono-me se o verbo é mesmo adaptar. Poucos (ou mesmo nenhum) episódios do livro estão conforme o livro (nem sequer o jantar inicial sobrevive à fúria adaptativa). A vontade de adaptar é extensível aos anexos d' O Senhor dos Anéis. Quem pensa que os anexos d' O Senhor dos Anéis serviram apenas para aumentar volume desengane-se! Serviram antes de mais para sugerir coisas giras que podem ser lá enfiadas para o meio sem qualquer respeito pela narrativa.
Numa conversa com um amigo, ele queixava-se que "faltava aquele efeito surpresa de ver a Terra Média à nossa frente". Apesar de perceber o que ele quer dizer, aquilo que senti que faltava foi o olhar de um apreciador da obra. Esse olhar está bem patente n' O Senhor dos Anéis e serve de ponto de partida para se falar um pouco da linha que separa a fidelidade à obra da adaptação
Enquanto clássico da literatura infantil, O Hobbit apresenta uma estrutura toda ela muito dinâmica, com cada capítulo a corresponder grosso modo a uma aventura, toda ela narrada de uma forma linear e centrada nesse hobbit que parte com um grupo de anões à conquista de um tesouro numa montanha distante. Seria fácil imaginar que a transposição para o cinema seria muito mais fácil do que a d' O Senhor dos Anéis, mais do que pelas diferentes narrativas, mas mais por todo o peso que as emoções têm no segundo, as descrições mais exaustivas de paisagens e a própria complexidade das interacções das personagens entre elas e o mundo que as rodeia. Claramente, quando se começou a falar da expansão de uma obra apresentada num livro (e um volume) para três filmes, adivinhava-se já que se estava a fugir ao que seria normal numa adaptação (especialmente comparando com o facto de os seis livros - em três volumes - d' O Senhor dos Anéis terem dado origem apenas a três filmes). O que ocorre de facto é que se reescreve O Hobbit como uma obra subordinada a O Senhor dos Anéis (quando na realidade sucede o inverso). Esquecer qual das obras é que se encontra subornidada à outra dá origem à necessidade das contextualizações que esta adaptação a si chama. Isto se quisermos assumir as liberdades criativas tomadas como contextualizações e não deturpações, pois tal apenas é possivel se se entender O Hobbit como aquilo que ele não é: uma espécie, repito-o, de capítulo 0 d' O Senhor dos Anéis. O foco do livro não é como Sauron sobreviveu à Última Aliança de Elfos e Homens e da sua re-ascensão. O foco do livro não é de como Bilbo encontra o anel. O foco do livro não é de como os anões andam a fugir de um Azog (ou sua descendência) que morreu anos antes. Quem apenas vir o filme pensa que O Hobbit existe para que O Senhor dos Anéis possa existir. Repito-o, isso é uma premissa falsa. O Bilbo não decicidiu ir atrás dos anões devido ao apelo do seu lado "Took", ele foi praticamente empurrado por Gandalf e se ele corre porta fora não é por querer aventura é por ter medo das consequências de não honrar o contrato com os anões ao não chegar a horas ao ponto de encontro. Há uma grande importância dada ao "nome das espadas" e esquecemo-nos que a Sting ganhou o seu nome nas Misty Mountains, na fuga do Bilbo de Goblin Town. Há uma necessidade de dobrar a história para o Bilbo ganhar respeitabilidade entre os anões, e esquecemo-nos de um dos momentos em que tal acontece (e em que o anel toma algum protagonismo para tal acontecer). O sentido da história ficou dobrado no momento em que se achou pertinente mostrar o Radagast (e escuso-me de comentar trenós puxados por coelhos) e de como Mirkwood se tornou Mirkwood, de como houve necessidade de mostrar um Conselho Branco (outra vez adaptado) e de como provavelmente se sente a necessidade de vir a mostrar o assalto a Dol Guldur desviando-nos da essência do livro: a busca dos anões pelo seu tesouro e reino perdidos. Arrisco dizer, pelo que já foi revelado, que o Gandalf do início d'A Irmandade do Anel é um banana se ainda não percebeu quem é o Necromante!...
Portanto... O filme enquanto filme mais do que aguentar-se, é uma espectacular obra de aventura, com movimento, batalhas bem coreografadas e que não puxa muito pela cabeça. A fotografia é impressionante e a banda sonora mais uma vez assume o papel de personagem chave. No entanto, chamemos-lhe "Uma viagem inesperada", porque chamar-lhe O Hobbit leva a confusões com um livro cuja narrativa e finalidade diferem largamente daquilo que o autor do filme quis fazer. É um bom filme de aventuras, mas falha a toda a linha enquanto adaptação do livro.

Friday, February 8, 2013

Molecules at an Exhibition: Portraits of Intriguing Materials in Everyday Life - John Emsley


 Molecules at an Exhibition é a colectânea de uma série de quadros sobre moléculas, publicados pelo autor no The Independent, na sua rubrica Molecule of the Month. Neste livro as moléculas são apresentadas divididas em galerias, consoante os seus usos e aplicações mais correntes.

 O conhecimento de química dos leitores vai influenciar bastante a forma como se aprecia o livro. Para o leigo é um livro interessante, escrito numa linguagem acessível e que explica fenómenos banais de uma forma bastante perceptível e que ajuda a população em geral a perceber porque é que novos materiais, de uso corrente, consistem grandes desafios da ciência e da técnica. Para alguém com alguns conhecimentos de química avançada, o livro poderá, sob os holofotes da segunda década do século XXI, parecer já desatualizado. De facto, o livro colecciona textos escritos na sua maioria na década de 1990. Muitas das novidades já passaram e muitos dos desafios futuros ou já se resolveram ou foram colocados na gaveta das "boas intenções para mais tarde". Também o tom do livro pode parecer um pouco paternalista, não se inibindo o autor, nem sendo a isso obrigado, diga-se, de deixar o seu cunho opinativo sobre a natureza dos compostos em questão.

 É um livro que se recomenda a quem procura um pouco mais de conhecimento sobre o mundo que o rodeia, mas deve ser lido tendo presente que o texto não está actualizado e que de cada vez que se fala no "futuro", o futuro a que o livro se refere é hoje!

Tuesday, December 25, 2012

The War of the Worlds - H. G. Wells


The War of the Worlds, ou em português, a Guerra dos Mundos, da autoria de H.G. Wells é um daqueles livros que marcam. Não só pelas sua famosa adaptação para a rádio em 1938, mas por todo o legado que deixou na literatura e na cultura popular sobre Marte, invasões extraterrestres e os invasores.

Pode efectivamente ser considerado a obra seminal da literatura de invasão extra-terrestre, podendo encontrar-se aqui todos os temas e abordagens que gerações futuras iriam adoptar. Como todas as grandes obras, este War of the Worlds assume também a abordagem a grandes questões da sua época. De maior destaque são as do imperialismo e o evolucionismo.

No plano científico, há a grande questão da luta pelo Darwinismo. Publicado cerca de quarenta anos após "A Origem da Espécies" a Guerra dos Mundos coloca o domínio da Terra num plano de adaptação. Há a necessidade de adaptação dos marcianos a uma gravidade superior e a necessidade de sobreviverem às agressões biológicas a que a humanidade está sujeita há milhares de anos.

No plano político há a questão do anglo-centrismo. A forma como a sobrevivência do mundo depende da capacidade de a maior nação do mundo, isto é Inglaterra no auge do seu Império, sobreviver. Há aqui a forte mensagem de que os Impérios também caem e que apenas esperam pelos seus marcianos e de como há um tom de lamento, em vésperas da Iª Grande Guerra, por não se conseguir replicar a tecnologia alienígena.

A escrita assume um estilo profundamente descritivo em que o narrador anónimo nos narra, numa primeira parte, a invasão pelo seu ponto de vista, num outro momento pelo olhar do seu irmão e num momento final volta à sua própria visão. A escrita em si, podendo ser o que estava muito em voga há pouco mais de cem anos, corta muito a acção com as descrições. Dessa forma apesar de curta, há momentos em que nos sentimos sem sair do mesmo sítio, o que é uma pena pois queremos mesmo saber o que vai acontecer.

Resumidamente, numa escrita que pode não apelar à maioria dos leitores contemporâneos, The War of the Worlds é uma obra incontornável na introdução à Ficção Científica (ou à Ficção em geral) por ser uma obra que estabeleceu tónica e temas que seriam replicados ao longo de quase um século. 

Thursday, December 20, 2012

Wintersun - Time I


Em 2004 quem se movimenta na área do metal e do rock mais puxadote tinha muitos motivos para andar satisfeito. É o ano de Human Equation (Ayreon), de Leviathan (Mastodon), de Reise Reise (Rammstein), de Subliminal Verses (Slipknot) ou de Once (Nightwish) e Silent Force (Within Temptation). No entanto é também o ano em que Jari Maënpää deixou a sua marca. Não me refiro obviamente à sua participação no Iron, dos Ensiferum, mas sim do álbum Wintersun.

Os Ensiferum são apontados por alguns como uma das grandes bandas da cena Folk e Iron é apresentado como um dos seus álbuns seminais, no entanto, por motivos de conflito entre a divulgação do já referido Iron e o tempo que estúdio para gravar o seu projecto a solo, a banda perdeu nesse ano a participação do finlandês Jari Maënpää. Em boa hora o terá feito pois o álbum Wintersun é claramente superior a toda a obra da banda que o viu partir. Será mesmo, com Human Equation e Leviathan um dos três álbuns do ano.

Com tal aceitação a espera por um sucessor começou. Oito anos passaram até que os Wintersun, conseguissem lançar o sucessor do seu primeiro álbum. Oito anos muito dados a piadas e a boatos, mas que chegam ao fim com o lançamento da primeira parte de Time. Sim, tanto tempo à espera e o nome do álbum é Time! A questão que se coloca é se valeu a pena a espera.

Pela parte que me toca, esta primeira parte sabe francamente a pouco. Seria complicado apresentar a mesma frescura, o mesmo som a novo, do primeiro álbum, mas apenas três faixas de música em cinco (Sons of Winter and Stars, Land of Snow and Sorrow e Time) sabe a pouco. Claro que as três faixas roçam individualmente o épico. A primeira em particular, dividida em quatro andamentos, é como que um apanhado das capacidades técnicas da [agora] banda, apresentando várias camadas.

O produto final é portanto fiel ao princípio do primeiro álbum, apesar de lhe faltar substrato.  Provavelmente todo o projecto teria ganho com o ser lançado como álbum duplo e não em duas partes distintas, o que leva a pensar quanto tempo teremos de esperar de pela segunda parte. Musicalmente não desilude e face à impossibilidade de ser a novidade do primeiro álbum, consegue ainda assim manter o nível bastante elevado. Dificilmente será um candidato a álbum do ano, mas será para ouvir várias vezes.

Friday, November 16, 2012

A idade dourada da música portuguesa, parte 2.

Se calhar ainda é cedo mas alguns leitores fizeram-me chegar mais uma curta lista de coisas e acho que era injusto deixá-los à espera que a lista engrossasse.

A Naifa


Oquestrada


Os Golpes


Amor Electro


Teratron

É continuar a enviar nomes.

Wednesday, November 14, 2012

A idade dourada da música portuguesa

Em conversa com uma colega hoje acabei por encontrar eco para um pensamento que me assolava. Esse pensamento é que vivemos neste momento na, se lhe pudermos chamar isso, era dourada da música portuguesa. O que sucede, talvez pelo mundo global em que vivemos, é que o número de projectos que se multiplicaram nos últimos dez anos (ou assim) de música de qualidade em português se têm multiplicado e encontrado ecos editoriais. Abaixo segue uma lista dos que fazem o meu topo de preferências e que ajudam a reduzir saudades. Abençoados sejam por me manterem longe dos Dinos Meiras e afins desta vida!

Dazkarieh
Diabo na Cruz
Anaquim

Pontos Negros

Dead Combo

PAUS

B Fachada

 Mais alguma coisa digna da lista?

Monday, October 22, 2012

Citando Saramago - O Ano da Morte de Ricardo Reis 1


"Tanto mais, ah, tanto mais que há uma recomendação de Coimbra, um insistente conselho, Leia a Conspiração, meu amigo, é boa doutrina a que lá vem, as fraquezas da forma e do enredo desculpa-as a bondade da mensagem, e Coimbra sabe o que diz, cidade sobre todas doutora, densa de licenciados. Ricardo Reis logo no dia seguinte foi comprar o livrinho, levou-o para o quarto, aí o desembrulhou, sigilosamente, é que nem todas as clandestinidades são o que parecem, às vezes não passam de envergonhar-se uma pessoa do que vai fazer, gozos secretos, dedo no nariz, rapação de caspa, não será menos censurável esta capa que nos mostra uma mulher de gabardina e boina, descendo uma rua, ao lado duma prisão, como se percebe logo pela janela gradeada e pela guarita da sentinela, ali postas para não haver dúvidas sobre o que espera conspiradores. Está pois Ricardo Reis no seu quarto, bem sentado no sofá, chove na rua e no mundo como se o céu fosse um mar suspenso que por goteiras inúmeras se escoasse intérmino, há cheias por toda a parte, destruições, fome de rabo, mas este livrinho irá dizer como uma alma de mulher se lançou na generosa cruzada de chamar à razão e ao espirito nacionalista alguém a quem ideias perigosas tinham perturbado, sic. As mulheres são muito boas nestas habilidades, provavelmente para equilibrar as contrárias e mais do seu costume, quando lhes dá para perturbar e perder as almas dos homens, ingénuos desde Adão. Estão já lidos sete capítulos, a saber, Em véspera de eleições, Uma revolução sem tiros, A lenda do amor, A festa da Rainha Santa, Uma greve académica, Conspiração, A filha do senador, enfim, trocando o caso por miúdos, certo moço universitário, filho de um lavrador, meteu-se em rapaziadas, foi preso, trancado no Aljube, e vai ser a supradita filha de senador quem, por puras razões patrióticas, por missionação abnegada, moverá céus e terra para de lá o tirar, o que, afinal, não lhe será difícil, pois é muito estimada nas altas esferas da governação, com surpresa daquele que lhe deu o ser, senador que foi do partido democrata e agora conspirador ludibriado, um pai nunca sabe para o que cria uma filha. Ela o diz, como Joana de Arco à proporção, O papá esteve para ser preso há dois dias, dei a minha palavra de honra que o papá não fugiria a responsabilidades, mas também garanti que o papá deixaria de imiscuir-se em negócios conspiratórios, ai este amor filial, tão comovente, três vezes papá numa frase tão curta, a que extremos chegam na vida os afectuosos laços, e torna a dedicada menina, Pode comparecer à sua reunião de amanhã, nada lhe acontecerá, garanto-lho porque o sei, e a polícia também sabe que os conspiradores vão reunir mais uma vez, com o que não se importa. Generosa, benevolente polícia esta de Portugal que não se importa, pudera não, está a par de tudo, tem uma informadora no arraial inimigo, que é, quem tal diria, a filha de um antigo senador, adversário deste regime, assim traicionadas as tradições familiares, porém tudo acabará em felicidade para as partes, desde que tomemos a sério o autor da obra, ora ouçamo-lo, A situação do país merece à imprensa estrangeira referências entusiásticas, cita-se a nossa política financeira como modelo, há alusões às nossas condições financeiras, de modo a colocar-nos numa posição privilegiada, por todo o país continuam as obras de fomento que empregam milhares de operários, dia a dia os jornais inserem diplomas governativos no sentido de debelar a crise que, por fenómenos mundiais, também nos atingiu, o nível económico da nação, comparadamente a outros países, é o mais animador, o nome de Portugal  e dos estadistas que o governam andam citados em todo o mundo, a doutrina política estabelecida entre nós é motivo de estudo em outros países, pode-se afirmar que o mundo nos olha com simpatia e admiração, os grandes periódicos de fama internacional enviam  até nós os seus redactores categorizados a fim de colher elementos para conhecer o segredo da nossa vitória, o chefe do governo é, enfim, arrancado à sua pertinaz humildade, ao seu recolhimento de rebelde a reclames, e projectado em colunas de reportagem, através do mundo, a sua figura atinge as culminâncias, e as suas doutrinas transformam-se em apostolados, Perante isto, que é apenas uma pálida sombra do que podia ser dito, tem de concordar, Carlos, que foi uma loucura irresponsável meter-se em greves académicas que nunca trouxeram nada de bom, já pensou nos trabalhos que eu vou ter para o tirar daqui, Tem razão, Marília, e quanta, mas olhe que a polícia nada apurou de mau contra mim, somente a certeza de que fui eu quem desfraldou a bandeira vermelha, que não era bandeira nem coisa que se parecesse, apenas um lenço de vinte e cinco tostões, Brincadeira de rapazes, disseram ambos em coro, esta conversa passava-se na prisão, no parlatório, é assim o mundo carcerário. Lá na aldeia, por acaso também no distrito de Coimbra, outro lavrador, pai da gentil menina com quem este Carlos há-de vir a casar-se mais para o fim da história, explica numa roda de subalternos que ser comunista é ser pior que tudo, eles não querem que haja patrões nem operários, nem leis nem religião, ninguém se baptiza, ninguém se casa, o amor não existe, a mulher é uma coisa que não vale nada, todos a ela podem ter direito, os filhos não têm que dar satisfação aos pais, cada um governa-se como entender. Em mais quatro capítulos e um epílogo, a suave mas valquíria Marília salva o estudante da prisão e da lepra política, regenera o pai que definitivamente abandona o vezo conspirativo, e proclama que dentro da actual solução corporativa o problema resolve-se  sem mentiras, sem ódios e sem revoltas, a luta de classes acabou, substituída pela colaboração dos elementos que constituem valores iguais, o capital e o trabalho, em conclusão, a nação deve ser uma coisa assim como uma casa onde há muitos filhos e o pai tem de dar ordem à vida para a todos criar, ora os filhos, se não forem devidamente educados, se não tiverem respeito ao pai, tudo vai mal e a casa não resiste, por estas irrespondíveis razões é que os dois proprietários, pais dos noivos, sanadas algumas desinteligências menores, até contribuem para que acabem os pequenos conflitos entre os trabalhadores que ganham a sua vida ora servindo a um ora servindo a outro, afinal não valeu a pena ter-nos Deus expulsado do seu paraíso, se em tão pouco tempo o reconquistámos."
in O Ano da Morte de Ricardo Reis

Monday, September 24, 2012

As Atribulações de Jacques Bonhomme - Telmo Marçal



Telmo Marçal não existe. Telmo Marçal é um personagem. Telmo Marçal pode não ser um personagem de nenhum dos contos que escreveu, mas é um homem profundamente amargurado e azedo, dono de uma certa capacidade de passar a sua visão escura da vida para o papel e de o fazer com habilidade, de prender os seus leitores a esse seu negrume projectado nas folhas papel.

Telmo Marçal é um preconceituoso. Telmo Marçal tem contos onde as suas personagens têm uma e uma só camada e são tão carentes de profundidade que nos perguntamos se existirão mesmo. Só que os estereótipos que a personagem Marçal faz desfilar nos seus contos, são os estereótipos que toda uma sociedade criou para culpar o outro, e só o outro, pelas suas falhas.

Telmo Marçal é um pessimista. Não há contos de Marçal que pintem um futuro ou um presente risonhos. O presente está cheio de corrompidos e o futuro de iluminados opressores. O futuro de Marçal é o fruto da lei do mais forte e da bota cardada, das facas longas em noites de cristal, dos campos de indesejáveis eugénicos, preguiçosos limpadores de sanitas, bodes expiatórios dos nossos pecados.

Os leitores de Marçal são personagens que depressa se prendem à prosa do autor. Não é uma prosa elaborada mas é uma prosa eficaz. Uma prosa que provoca tonturas. Uma prosa de arrepios frios. Uma prosa que cresce, que sorve a alegria em seu redor.

A personagem que criou os textos reunidos neste livro tem no entanto vontades que o extravasam. Ela não se quer ficar por contos. A forma como por vezes se perde a descrever os locais onde decorre a história são mais próprios de romances do que de contos. A forma como nos conta o como as suas marionetas chegaram ali é própria de um ser aterrorizado com a ideia de as suas subtilezas não serem compreendidas, é a forma como um ditador faz valer a sua vontade, para que apenas a sua forma de interpretar seja possível e passível. Essa é a grande falha desta obra. A vontade de transformar cada conto num pequeno romance é o que cansa o leitor, o que o faz querer saltar um parágrafo ou sentir que se perdeu no caminho. É quando o autor quer fazer o conto crescer para lá de conto que a imagem formada se torna uma nuvem de fumo tóxico. Não que todos os contos padeçam desse mal, pois entre eles está do que melhor tenho lido recentemente em português, mas esses defeitos estão lá e distraem e quebram o ritmo e o exercício de condensação num só volume de contos escritos para várias fontes ao longo dos anos, sem nenhum tipo de controlo ou cimento entre eles, faz com que seja impossível não verificar como para o final alguns já começam a parecer ou esboços ou uma re-escritura de outros.

Friday, August 10, 2012

Optimus Alive 2012

Este ano a visita a Algés foi mais extensa do que em 2011. O cartaz era feito de poucos conhecidos e a proposta era essencialmente de descoberta. Essa abordagem pode ser ingrata para os conhecidos, uma vez que geram expectativas, e feliz para as descobertas, pela falta das mesmas.

Qualquer comentário ao que foi o festival terá de passar obrigatoriamente por comentar o que foi a presença dos Radiohead. Estou longe de ser um ferrenho conhecedor da banda, de modo que as minhas expectativas para o que poderia ser um concerto deles foram muito influenciadas pela expectativa que criaram à minha volta. E que expectativas eram essas? Para começar gente que por instantes esqueceu que tinha contas para pagar e foram a correr ajudar a esgotar o terceiro dia do festival. Outros, exilados em paragens mais frescas e sem férias para gastar, a lamentarem profundamente a sua incapacidade de fazerem oito horas de vôo (quatro para cada lado) para assistirem à banda. Uma olhadela atenta ao horário dos palcos permitia concluir que durante a actuação de Radiohead, mais nenhum palco estaria a funcionar. A noite prometia portanto ser épica. Prometia mas falhou a toda a linha! Provavelmente tem de se ser um indefectível adepto da banda para se conseguir apreciar todo o eventual esplendor colocado em palco. Radiohead foi, não há outra palavra, uma merda. Foi algo de tão mau, tão mau que ainda antes do final abandonei o local onde me encontrava para ir comer qualquer coisa bem longe deles. Posso assegurar que não fui o único a fazê-lo e nem sequer o primeiro, mas percebe-se perfeitamente a atitude das pessoas porque era decididamente muito cedo para se começar a fazer o chill out. Radiohead vieram como cabeças de cartaz quando, para fazerem o bonito número a que se prestaram, deviam ter sido atirados para as três da manhã como banda de chill out. Confesso que se estivesse num bar pequenino, sentado e a conversar com amigos, o concerto teria andado a roçar o muito bom. Num ambiente de festa e todo ele a transbordar energia, Radiohead foram os assassinos do ambiente, aquilo que em inglês se designa mood killers. Nessa fina arte de dar banho aos cães eles foram geniais até porque conseguiram juntar um alinhamento para koalas mordidos pela tsé-tsé a uma total inabilidade (falta de vontade?) para comunicar com o público. Quem tivesse assistido às nem-sequer-tentativas de interagir pensaria que os Radiohead seriam a banda chamada à última da hora para substituir um cabeça de cartaz. Ao lado das palavras isoladas de Thom Yorke (se entre músicas usou mais do que, assim por cima, três eu não ouvi), os sussuros impercetíveis de Robert Smith no dia antes soavam a poesia. Até a choraminguice de B Fachada conseguia ser enternecedora. A título de curiosidade, os SBTRKT conseguiram utilizar na sua apresentação ao público mais palavras numa frase, que os Radiohead no concerto todo. Salvou-se o bom trabalho vídeo, mas mais uma vez, isso podia eu ter num bar...

O que dificilmente teria num bar era a performance absolutamente irrepreensível dos portugueses PAUS. Só eles fizeram valer a pena ter estado neste dia no Alive. Sonoridade fresca, abordagem impecável e interacção com o público sem mácula. Muitos podem-me chamar louco, mas acho que os veteranos cabeças de cartaz não perdiam nada em descer do seu pedestal e aprender com estes novatos a tomar o pulso à plateia. B Fachada trouxe lá mais para a tarde o seu karaoke cheio de ritmos calmos e introspectivos. Comunicou muito com o público, mas o papel de coitadinho a entre cada duas músicas não combinava com aquele final de tarde à beira rio. De Márcia, que havia actuado momentos antes só ouvi parte de uma música. Não gostei do que ouvi e portanto fui para outras paragens, mesmo a tempo de ouvir o final de Warpaint e de lamentar não ter ouvido todo o concerto. Os instantes de Maccabees que ouvi também foram interessantes, mas havia alguma expectativa de ir arranjar um lugar para a grande banhada...

No capítulo do "esperava um bocadinho mais" terá de se recuar um dia e falar dos Florence and The Machine. Esperava-se mais, porque acima de tudo se esperava que aparecessem! O ritmo a que alguns artistas recentes ficam com súbitos problemas vocais faz pensar que o regime saudável de outros tempos é bem mais saudável. Perguntem aos Rolling Stones que eles explicam... Para tapar a cratera lá se chamaram os Morcheeba. Muitos dos ouvido mais jovens ficaram frustrados, mas têm de ser perdoados. Afinal daqui por quinze anos será a Florência deles que será chamada para tapar buracos! Sim rapaziada, houve uns tempos em que os Morcheeba eram para nós o que Florence and the Machine é para vocês! O alinhamento foi agradável, mas não aqueceu muito a assistência, até porque soprava uma brisa do rio que destoava do dia quente.

Se as orelhas de há quinze anos começaram a aquecer com Morcheeba, as de há 25 escaldaram com o que se seguiu. The Cure podiam muito bem ter tocado toda a sua discografia que no final não chegaria. A multidão de indefectíveis custou a arrancar, mas os toadas mais mornas tiveram o condão de refrescar os sectores menos condensados da assistência, fustigados que eram por faixas introspectivas e uma aragem fresca. 

Nada fresca, mas sim muito escaldante, foi actuação dos Blasted Mechanism. Com álbum novo na mala e prestes a celebrar mais um aniversário sem esse monstro do palco que era o seu primeiro vocalista, a banda apresentou um registo onde os temas novos se integram muito bem nos velhos, apresentou arranjos diferentes, mais em linha com a sonoridade presente, cativou todo o palco secundário e mostrou que serem atirados para as três da manhã foi uma tremenda injustiça para uma banda da casa. Não que isso importasse! A interacção com o público foi total e se antes havia uma figura de destaque, neste momento há um colectivo de destaque, sempre a puxar para cima a energia do público!

Antes nesse dia, os Awolnation mostraram que a sua música não se fica pelo muito tocado Sail. Há ali muita energia e músicas para abraçar o parceiro do lado. O vocalista vestiu impecavelmente a pele de mestre de cerimónias e saí do concerto bastante satisfeito.

Outras aragens, mas estas mornas a dar para o escaldante, minaram o concerto de Stone Roses na primeira noite do festival. Não é que o alinhamento fosse fraco, não é que faltasse entusiasmo na banda ou nos presentes, simplesmente foi injusto pô-los a tocar ao mesmo tempo que a malta se acotovelava (no bom sentido) na outra ponta do recinto para ouvir (muitos não conseguiriam ver) os Buraka Som Sistema. Passar junto ao palco secundário e não começar a "dançar" (usemos o termo num sentido lato, no qual se incluem coisas como "abanar-se") era impossível. Acredito mesmo que as próprias árvores e pedras da calçada estavam a dançar, tal o contágio que emanava do palco.

Este dia acabou por ser mesmo para mim o mais interessante. Apesar de apenas ter assistido a partes dos concertos, Miúda e Dum Dum Girls brilharam muito, mas a minha razão de estar no recinto no primeiro dia foram os suecos Refused e não desiludiram. Punk agressivo q.b., uma mensagem aqui e ali e a mesma música de sempre, a encorajar um dos melhores moshes onde tive o prazer de estar nos últimos anos.

Um comentário à organização. Já o ano passado, em que só fui um dia, havia ficado um profundo sentimento de injustiça quanto à arrumação dos palcos. Desta vez o sentimento cresceu na directa proporção do número de dias em que lá fui, mas não só. Mais do que a sobreposição de concertos interessantes, por mais do que uma vez se revelou que havia bandas escaladas para o palco errado. 

Na categoria sobreposição houve melhorias, mas não se evitou o momento quase confrangedor ver que Stone Roses tinha uma mancha a assistir quase tão grande como... PAUS! Em grande parte porque muito público se deslocou do palco principal para o palco secundário, para os lados do palco secundário, para trás das barracas de comida que tapavam a vista para o palco secundário, enfim... Para onde lhes fosse possível serem contaminados pelos ritmos de Buraka.

No capítulo "banda certa no local errado" entram direitinhos, lá está, os Buraka. Com gente que ia até bem longe do palco, a banda da Buraca justificou um lugar num local mais amplo. Se a quantidade de gente por si só não chegasse, o facto de puxar mais gente com o passar do concerto, ao contrário de outros cabeças de cartaz, fá-lo-ia. Ainda no primeiro dia, os LMFAO levaram muitos pais a levarem a sua prole pela mão para assistir ao concerto. Agora, eu gosto muito dos Refused e adorei o concerto deles, mas claramente a sonoridade dos suecos presta-se muito mais ao recato de um palco secundário do que a actuação de uma das bandas quentes do momento. Ficou, no final do terceiro dia, também o sentimento que houve má gestão dos cabeças de cartaz. Quando olho para o que foi o festival, se Stone Roses tocasse no terceiro dia e Radiohead no primeiro, todo o sentimento poderia ter sido diferente. Se, se, se...

No capítulo transportes, lamento profundamente que a malta da Margem Sul continue a ser maltratada. Como se não bastassem os cortes do Governo nos barcos, a organização manifestou a incapacidade (eu gosto de pensar que não conseguiram, mas...) de arranjar barcos especiais combinados com os últimos comboios/autocarros, mas tirando esse particular parece-me que houve um investimento em facilitar as acessibilidade ao festival.

Concluindo, um festival sempre agradável que começa a granjear adeptos em paragens mais distantes, mas que me deixou com muitos "ses" e isso não me deixa elevá-lo aos píncaros...



PRÉMIO "Quero o meu dinheiro de volta!"
-Radiohead
-Márcia

PRÉMIO "Eu até estava cansado e a precisar de descanso."
-The Cure
-Morcheeba
-B Fachada

PRÉMIO "Não conhecia estes tipos, mas o bilhete começa a parecer bem comprado."
-Awolnation
-Miúda
-Dum Dum Girls
-Warpaint

PRÉMIO "Agora sinto-me Alive!"
-Blasted Mechanism
-Buraka Som Sistema
-Refused
-PAUS (chamemos-lhe Banda Revelação)

Thursday, August 9, 2012

O Bom Demónio - Nikos Kazantzakis



O título O Bom Demónio dirá muito pouco ao público em geral. No entanto, o nome da personagem principal depressa fará soar alarmes de reconhecimento. O nome: Alexis Zorba. Esse mesmo, a figura que ficou imortalizada por Anthony Quinn no filme Zorba, o Grego, é a figura a que o título desta obra se refere.

No momento em que fechei este livro, tudo o que ele narra faz sentido de uma forma estranha. Estranho porque creio que dificilmente o livro apelaria aos meus sentido se o país onde me encontro não tivesse dias de Verão com temperaturas bem abaixo dos vinte graus, onde a chuva e o vento são as únicas incógnitas sob as nuvens, onde a comida não tem sabor e o trabalho é encarado como a redentora cura de todos os males. Se não me encontrasse rodeado dessa filosofia do viver para trabalhar, o livro dificilmente faria sentido.

Pensando melhor, o livro faz sentido talvez um pouco por todo o lado, muito dado ao momento em que vivemos, e será difícil não olhar para ele como literatura subversiva de todos os valores que nos têm sido papagueados nos últimos anos.

Não é que a obra não incida sobre a amizade entre o narrador e Zorba, essa amizade tão bem passada para a tela por Alan Bates e Quinn, mas o livro é mais, muito mais! Fazendo uso das ferramentas ao seu dispor, Kazantzakis recorre ao seu eu literário para nos contar o que foi para ele crescer e conhecer o verdadeiro Zorba. Com frases simples e facilmente acessíveis, Kazantzakis torna todo o livro um tratado de Filosofia, onde o discípulo vai confrontando o mestre. Confronto é a palavra chave do livro, tal a frequência e tais as formas que este toma. Ele é o saber teórico contra o empírico, os livros do narrador contra a vida de Zorba. Ele é a juventude contra a idade, os sonhos contra a realidade, o mudar o mundo contra o ter sido mudado, a ilusão contra a prudência, a inocência contra a matreirice. Zorba não é um personagem qualquer, ele podia ter sido o nosso pai. Zorba é um pai para o narrador, é a figura paternal que o ajuda a passar da adolescência para a idade adulta.

Uma leitura de O Bom Demónio à luz do momento que vivemos não deixará de notar como esta obra transpira todo um ar de trabalhar para viver. Zorba surge como um farol de alegria, mesmo nos momentos maus Zorba aparece como o homem que aprendeu a dar a volta e encarar sempre pela positiva. Zorba é a figura que nos diz que por muito que a escola nos ensine, nunca saberemos nada enquanto não nos fizermos à estrada, enquanto não cairmos e nos levantarmos. Num momento em que figuras engravatadas, mas ainda de fraldas, nos dizem que o nosso fim é morrermos a trabalhar para eles, este livro é um hino à rebelião e portanto uma leitura indispensável.

Tuesday, August 7, 2012

O que está para vir.

 Passadas as féries é altura de abordarmos o que de agradável se passou nessas férias. Do ponto de vista deste blog haverá novidades.

 Haverá um comentário ao que foram três dias no Optimus Alive, uma quebra com a rotina e hipótese para rever amigos de longa data e de há muito tempo, para agradáveis surpresas e para desapontamentos.

 Em termos de matéria escrita haverá ainda espaço para comentar as obras que recentemente se fecharam. Azincourt, um romance histórico de Bernard Cornwell que relata a batalha da Guerra dos Cem Anos, que decorreu no local com o mesmo nome, e que marca o regresso do autor às histórias com o arco inglês. Outro volume que se fechou foi O Bom Demónio, de Nikos Kazantzakis romance que conta como personagem principal com um tal de Alexis Zorba. Para quem desconhece, recomenda-se o visionamento do filme Zorba, o Grego.

 As férias serviram ainda para adiantar as leituras do romance gráfico The Sandman, de Neil Gaiman, e de adiantar a leitura da Colecção de Livros Licenciosos, da editora Tinta da China, coordenada por António Ventura, pelo que será expectável que até ao fim do ano se comentem estes blocos.

Wednesday, June 27, 2012

Pearl Jam - Ziggo Dome, Amsterdam, 26-Junho-2012

Este ano vou tentar ir falando dos concertos à medida que acontecem. Também a frequência deve ficar aquém do ano anterior (dica: alguns dos melhores ficaram por comentar).

A época este ano abriu com um nome grande. Pearl Jam no recém inaugurado Ziggo Dome. O alinhamento teve tudo de bom. Da minha lista de músicas preferidas só ficou de fora o Jeremias, mas como a lista é longa  percebe-se.



Como é que um apreciador de música, sem conhecimentos técnicos avalia um concerto? Quer dizer, à partida quem compra um bilhete já tem uma ideia daquilo ao que vai, portanto o espaço para o desapontamento está reduzido logo à partida (apesar de já me ter acontecido). Um método que desenvolvi é medir o tempo até que olho para o relógio. Ontem passava uma hora e pouco desde o início do concerto e a banda tinha-se retirado para um descanso. Mais meia hora, mais descanso e aí estou eu a olhar para o relógio outra vez. O olhar final, que só ocorreu após o final de Yellow Ledbetter, já era mais para perceber qual o comboio que ia apanhar.




 O que achei do concerto? O Ed (foi ele que pediu para ser tratado assim) disse que o concerto de ontem foi o 12º da banda na Holanda. Pois bem, pegando no número o que posso dizer é que ontem durante quase duas horas e meia voltei a ter doze anos e ia para casa do meu melhor amigo ouvir as cassetes do vs e do Vitalogy sem parar, tempos despreocupados, senti-me ganhar anos. Quem nos consegue voltar a sentir jovens merece o nosso agradecimento. De cada vez que andamos para trás estamos no fundo a ganhar todos esses anos lá mais para a frente. Quem nos faz esse favor retarda-nos a senilidade. Todos os momentos em que tal sucede saboreiam-se de uma forma especial. Ontem foi uma dessas noites.

Thursday, May 31, 2012

Frankenstein, de Mary Shelley



É frequente vermos escritores maduros recomendarem aos mais novos que leiam muito que leiam os autores clássicos. Confesso que o género do terror está um pouco longe das minhas preferências e as últimas experiências que tive, ao opinar sobre uma colectânea que incluía uma divisória dedicada ao género, me deixou mais aterrorizado pela pobreza da escrita do que agradado pela riqueza de conteúdos. Foi pois com alguma renitência que peguei na primeira obra de Mary Shelley.

 Devo dizer que, finda a leitura, em boa hora o fiz e melhor ainda percebi porque os escritores com muitas páginas escritas recomendam aos novatos que percam tempo a ler os clássicos. Acontece que por algum motivo chegaram a clássicos e, nisto de livros, dificilmente um livro é de tal forma mau que dá a volta e se torna imortal.

 O livro, que se lê num instantinho, desfaz um certo mito enraízado na cultura popular. O monstro nunca é baptizado. Ou melhor, quando nomeado, é normalmente designado por substantivos que traduzem um certo carácter de figura aberrante. Estando a figura do monstro de tal forma entranhada na nossa mente, é com algum espanto que notamos num certo conflito entre o descrito na obra e o formulado na nossa cabeça. O doutor é um jovem que iniciou faz pouco tempo os seus estudos superiores e que quase sem querer descobre o segredo de criar vida. Também a monstruosidade que ele cria está muito longe de ser aquela espécie de frigorífico verde que muitas vezes lhe associamos.

 É nestes confrontos entre a cultura popular e a obra escrita que se acaba por retirar ainda outra particularidade. Frankenstein é muito mais do que um simples conto e cresce rapidamente à categoria de um certo ensaio filosófico. Há ali uma certa sombra das consequências dos nossos actos, há ali um certo foco no julgamento baseado nas aparências. Sim, a páginas tantas damos connosco a odiar o monstro e noutras o seu criador. É possível gostar do monstro, é possível mesmo sentir alguma simpatia por ele e isso só é possível porque a escrita sendo simples, nunca resvala para o simplista.

 Um pouco mais acima mencionei o uso de vários substantivos para descrever a criatura. É importante que se fale nessa classe de palavras, porque uma das primeiras falhas dos aspirantes a escritores é o recurso a infindáveis listas de adjectivos. Essas listas nesta obra primam pela ausência. Há adjectivos com conta peso e medida, da mesma forma equilibrada que aparecem os trechos descritivos.

 Será um pouco precipitado dizer que a leitura desta obra me converteu ao género. Gostei da obra essencialmente porque serviu para fortalecer o meu ponto de vista que a literatura de género serve para arrumar livros nas estantes, afinal os livros dividem-se em duas categorias: os bem escritos e os mal escritos. Ler os primeiros ajuda a perceber como evitar produzir muitos dos segundos. E nos dias de hoje em que, como diz um conhecido, há mais escritores que leitores, seria bom que todos os aspirantes a produtores de obras, parassem de produzir e se dedicassem a consumir os clássicos.