Monday, May 11, 2015

O Retorno - Dulce Maria Cardoso

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Lembro-me de ouvir contar histórias sobre o que ficou para trás. Lembro-me de palavras estranhas ditas com um eco de saudade como nunca senti. Lembro-me de olhares vazios que viajaram quilómetros sobre as águas que distam desse lugar lá longe, esse lugar donde só conheci ecos da guerra civil, do lixo nas ruas, da profunda corrupção. Lembro-me de tudo, mas não vivi esses momentos, não os posso compreender. Só que Dulce Maria Cardoso viveu-os como quem me contou esses momentos. Viveu-os de forma diferente certamente, mas viveu-os, e nas suas palavras fui levado a recordar as tardes em que ouvia falar de Angola e do que lá tinha ficado.
 
Não posso puxar para mim e para os meus o drama que este Retorno conta, mas o tom, a saudade, a mágoa, relembro terem sido presença em várias ocasiões. Se mais nenhum mérito tivesse, esta obra teve o mérito de me explicar a minha História. Se mais nada me transportasse para o livro, pelo menos uma dívida de gratidão lhe seria sempre devida.
 
Só que a minha História, a que chamei de minha, não é bem minha. Ela é a de muitos mais, ela é a de uma ferida que para muitos nunca sarou, tantos os que ainda hoje se ouve lamentarem, tantos os que hoje ainda choram o que se deixou e amaldiçoam o que os esperava, tantos e tantos Ruis dessa vida, tantos e tantos...
 
O Retorno conta a história de uma família de Angola desde a Revolução até sensivelmente finais do Verão Quente de 1975. É a história de um pai que ficou para trás e de uma mãe que foge na Ponte Aérea com os dois filhos adolescentes e os tem de criar num hotel da Linha. Conta as desventuras de quem se tornou estrangeiro no seu país, terra que nunca vira e que em tudo é diferente do que sempre chamara seu, conta algumas aventuras e tudo faz sem juízos de moral.
 
Acima de tudo é a falta de juízos que se destaca na obra. Não é uma obra saudosista, não é um julgamento a ninguém, é um relato apaixonado das forças que então moldaram a nossa História. O Retorno é um livro de História. É um livro da História que a História nos ensinou a julgar com bons e maus, e é um livro que fala de pessoas, com virtudes e defeitos. Não há vencedores n' O Retorno. Nem derrotados. Há gente que perdeu coisas e ganhou outras e gente que pensando ter ganho acabou por perder. Há gente. Há um povo. Não há apontar dedos. Lemos toda a obra e ficamos sem saber o que pensar. Não há dizer que foi bom, que foi mau, que podia ter sido diferente e ao mesmo tempo há quem diga que aconteceu tarde, uns que nunca deveria ter acontecido e outros ainda que devia ter sido diferente.
 
É um livro com dores de crescimento. Um livro onde um adolescente tem de cortar com o seu meio e acaba transplantado para um mundo que não é o seu. Um adolescente de quem é tão fácil gostar como censurar. Há a irmã dele. Há a mãe dele. Não há mais do que a memória do pai levado num jipe pelos pretos porque ele não lhes fez frente, mas que vai voltar, tem de voltar... Há um hotel cheio de gente, um país cheio de um cheiro a liberdade mas ainda tão amarrado a preconceitos. Há medo do estrangeiro, em particular do estrangeiro que não o é. Há esperança num futuro melhor, mesmo quando são negras a nuvens no horizonte.
 
Há uma escrita apaixonada, que abraça o leitor, que conta a quem não viveu esse tempo o que como foi ter de o viver, que dá os sapatos dos que vieram a quem nunca teve de os calçar e lhes mostra quão largos ou apertados, quão frios ou confortáveis esses sapatos foram e no final diz que foi assim, já passou, olhemos antes para o future. É um livro invernal que nos fala de esperança. É um livro que nos dá um nó nas vísceras e do qual gostamos e o qual guardamos num lugar especial na estante e que queremos voltar a ler. Nem que seja para recordarmos aquela voz carinhosa, aqueles olhos quase humedecidos que nos falam do que era a vida em Angola.

Tuesday, April 21, 2015

O Diário Oculto de Nora Rute - Mário Zambujal



Gostava de fazer um longo texto sobre este livro. Gostava, mas não consigo. Provavelmente quem viveu aquele período conseguirá tirar muito mais do livro do que quem não era vivo na altura. É preciso haver uma certa dose de vivência pessoal para se conseguir perceber o que foi o ano de 1969 narrado pelo diário de Nora Rute, uma jovem vintona da classe alta portuguesa, que participou um ano antes no Maio de 68 em Paris, que foi rejeitada pelo seu pai por isso e que vive a idolatrar as mulheres mais progressivas em seu redor e a suspirar pelo seu Marcel.

Creio que a escrita fica aquém da Crónica do mesmo autor, mas a capacidade de Mário escrever a sério com um toque de humor, ou humor a sério, está lá. Está lá de tal forma que o livro se vai folheando sem se dar pelo tempo a passar. Para isto é determinante a estrutura de diário com capítulos de formato variável, num tom intimista que suga o leitor para o lado da personagem.

É um livro que se lê de uma penada, bem escrito mas que não entusiasma por aí além, com um final previsível desde cedo.

Thursday, March 26, 2015

Carrie's Story - Molly Weatherfield


No preâmbulo a Carrie's Story, a autora confessa que sempre se sentiu seduzida pelo mundo da submissão e dominação, desde que nos seus tempos de infância lera Sade e a História de O. Não surge assim como nenhuma surpresa que este livro, escrito por encorajamento de pessoas amigas, apresente largos ecos dessas experiências, em particular da obra de Pauline Réage. Não é fácil escrever sobre assuntos de alcova. Os Bad Sex in Fiction Awards são um bom exemplo de como a capacidade de descrever cenas de cariz sensual não anda de mãos dadas com as capacidades literárias do seu autor. Recentemente, um sucesso editorial, transformado em sucesso cinematográfico, levou-me a questionar sobre para quando o Bad Fiction with Sex Awards e cheguei à conclusão que precisava de algo que me restaurasse a fé que, numa era liberal nos costumes, há quem se saiba servir dessa liberdade para escrever bem sobre libertinagem. E assim chegamos a Carrie's Story.

Resumidamente, neste conto Molly Weatherfield dá-nos a conhecer a evolução de Carrie no mundo das relações de dominação-submissão. Carrie é uma jovem perdida, à beira de se licenciar num curso com que não se identifica e que faz biscates como estafeta para ajudar a pagar as conas. Certa noite deixa-se encantar por Jonathan, homem mais velho e assente na vida, numa festa e às três da tarde do dia seguinte embarca então na relação referida. O ponto de partida para o conto é no entanto o momento em que Jonathan lhe comunica que a quer vender num leilão. Segue-se então a analepse para a referida festa e o crescendo da relação, relação essa construída em fins-de-semana na mansão dele em que ele dita as regras e ela as segue. Quando retornamos ao ponto em que Carrie concorda com a proposta do leilão, o conto muda de rumo pela primeira vez.

Se até aí a narrativa envolvia pessoas externas ao duo e às práticas do duo, envolvendo frequentes desabafos de Carrie, a partir daí deixa de haver espaço para personagens fora da dinâmica de dominante-submissa. O que sucede é que Carrie se muda para casa de Jonathan para que este possa dedicar todo o seu tempo a treiná-la para o leilão. Na prática tudo se assemelha a Roissy, mas em fraquinho e intercalado com o espírito analítico de Carrie a tentar racionalizar todos os actos. Sabendo das influências, não surpreende tal paralelismo. O momento seguinte de quebra na narrativa surge com a necessidade de Jonathan se ausentar, muito contra a sua vontade, por motivos de negócios. Muito contra a sua vontade porque neste ponto tem de tomar uma decisão sobre o treino de Carrie, ou o interrompe, ou a passa para outro dominante. Adoptando a segunda opção, outra escolha se lhe afigura. Com quem deixar Carrie?

Jonathan gaba-se de conhecer "um tipo muito melhor de pervertidos" do que aqueles que estavam na festa em que se conheceram e esta crise na narrativa é o momento ideal para os apresentar. Por um lado temos a antiga dominante-submissa de Jonathan, uma autoridade junto da tribo e uma das mais exigentes dominantes, por outro um tipo que tem uma quinta onde treina póneis, e não, não estamos a falar de equídeos! Para efeitos de fugir a uma versão suave da História de O, a narradora opta por enviar Carrie para a quinta, num atrelado para cavalos, com palha e tudo. A mudança na narrativa neste ponto é interessante e será aqui que a maior parte das opiniões sobre o livro começarão a ganhar uma forma mais tangível, de tal forma as cenas que se passam na quinta, com a alimentação, a escovagem, o dressage, as cavalariças e ainda actividades com charruas e charretes a serem dedicadas a e executadas por os submissivos que ali vão a pedido dos seus dominantes. É aqui que uma mudança muito grande se dá na personalidade de Carrie em que ela abandona a sua racionalização e passa a reagir por instinto. Depois da quinta, ela vê o leilão como uma oportunidade de se livrar de Jonathan, um mau dominante demasiado perdido nos sentimentos amorosos que sente por ela. Saídos do picadeiro é fácil o leitor sentir que o adjectivo apaixonado, quando aplicado a Jonathan, tem uma conotação pejorativa. É esse todo o tom do texto e é difícil não alinhar com ele. É indiscutível que depois das cenas do picadeiro, tudo o que Jonathan faça empalidece por comparação, e queremos tanto como Carrie que venha o leilão. Antes do leilão temos somos ainda prendados com cenas saídas orgulhosamente de Roissy, com toques de século XXI. O leilão acaba por ser um pouco despachado, mas todo o treino e os cuidados com a mercadoria que o antecedem são uma boa leitura.

Pessoalmente gostei do que li. A nível de erotismo, quem não é adepto do binómio dominação-submissão terá dificuldades em se sentir particularmente excitado com este conto. No entanto, penso que a autora consegue transmitir bem o balanço de forças inerentes a essas relações. Comparando com a incontornável História de O diria que este conto é mais cerebral. Enquanto que no clássico francês há um foco muito grande no aspecto físico, nos abusos perpetrados, na violação consentida em que as vítimas se convencem que gostam de ser abusadas para tolerar a violência dos actos, nesta Carrie's Story há uma maior racionalização dos passos, uma violência muito mais escondida. Enquanto que é fácil no primeiro caso imaginarmos uma sociedade realmente secreta, a sociedade secreta desde conto parece muito mais de brincadeira, muito mais consensual, as vítimas neste caso são menos vítimas e mais participantes.

Ao nível da escrita é bastante apelativa, sem ser um daqueles livros que se largam com dificuldade. Não há um esforço por romantizar nenhum aspecto das relações e evita a adverbialização e adjectivação em excesso. No fundo, o livro cumpre a sua função de restaurar a fé que há quem saiba escrever bem sobre assuntos de alcova, passem os quase 15 anos desde que foi publicado, mas apenas pode ser um clássico dentro de uma comunidade com interesses muito específicos, faltando-lhe algo que o torne mais de interesse para o público em geral.

Monday, December 8, 2014

O Leopardo - Giuseppe Tomasi di Lampedusa


A narração do declínio de uma dinastia siciliana, na pessoa do seu último patriarca, salva-se acima de tudo pela articulação entre a famosa frase de Tancredi (Se vogliamo che tutto rimanga com'è bisogna che tutto cambi. - Se quisermos que tudo fique como está, é preciso que tudo mude.) e de como cruamente o autor nos vai demonstrando tudo a arrumar-se em torno desta máxima numa Itália em estática mudança.

Na generalidade a leitura foi lenta e sofrida, em grande parte por achar que o foco em alguns aspectos se devia a factores que me transcendiam. Como exemplo surgem as descrições de salas e edifícios, que compõem uma parte substancial do livro, e as quais se percebe, pela adjectivação, pelo ênfase que se nelas se coloca e pelo uso velado da personificação, como os objectos são quase tão importantes como as gentes. Ora este aspecto leva-me a crer que esta é uma obra que pede forçosamente algum conhecimento do que foi a História italiana na última metade do século XIX para melhor se perceber o papel de cada personagem, objecto e lugar. 

À semelhança de muitos livros que leio traduzidos, neste fica aquela sensação de que a tradução terá estragado algo. Não quero com isto questionar o trabalho do tradutor, mas é uma tarefa ingrata e que pode estragar a experiência ao leitor, mesmo quando feita com amor e dedicação. Um conhecimento mesmo que elementar do italiano diz-nos que esta lingua tem um ritmo e uma sonoridade muito própria. Acontece que o italiano não é um italiano, mas muitos italianos. O que não será de certeza é o dialecto da Sicília, nomeadamente na viragem do século. Foi possível de ver, pela pontuação e algumas palavras usadas, qua havia algo sobre a respiração da obra que a tradução não conseguia passar e esse factor terá contribuído para uma menor apreciação da obra.

Pelo registo histórico e pela forma como representa a imutabilidade da natureza humana face às mudanças do poder em seu redor, a obra acaba por se destacar, no entanto o estilo não me apelou e a leitura que me proporcionou foi um tanto ou quanto sofrida. Penso no entanto que assim que tiver adquirido mais contexto para o texto, sou capaz de voltar a esta obra. Como disse, não gostei mas também não desgostei. Foi um pouco como estar numa sala onde todos falam de um tema que não conheço.

Monday, April 28, 2014

Wolfhound Century - Peter Higgins

O proverbial burro alimentado a pão de ló. Chegado ao final deste livro, tendo parado um pouco para resumir e repensar o que li, é assim que me sinto. De tão habituado que estou a quantidades copiosas de palha, quando me dão um cheirinho de algo sobejamente mais docinho, sinto que nada me chega.

Penso que a origem desse sentimento é uma questão de expectativas. Anunciado como algo de extraordiário, criou expectativas que no imediato não satisfaz. Quero mais. Não necessariamente melhor, mas mais. A questão que se coloca é, onde está então a grandiosidade?

A minha primeira resposta, com um distanciamento mais frio, é na pequenez. Pode um livro ser grande e pequeno? Pode. Em tempos de adjectivação com força e forçada, de minuciosas descrições exaustivas, Wolfhound Century consegue ser bastante sóbrio na utilização dessas ferramentas. Esse é o principal aspecto da grandiosidade, a clareza e a concisão, tão em falta nestes dias.

No que diz respeito à escrita não há muito a apontar. Curta, seca, tremendamente eficaz a criar uma atmosfera cinzenta, capítulos curtos mas, feitas as contas, com o essencial. Competente será um termo que encaixa muito bem.

Quanto ao estilo, é mais um daqueles livros que passeiam por estilos sem se amarrarem a nada. A conversa de anjos e obscuros objectos centenários remete para uma dimensão de fantástico a que o detective Lom e a sua busca pelo subversivo Joseph Kantor dão um toque policial. Só que as coisas não ficam por aí. Quando se descobre uma conspiração maior, somos arrastados por sequências dignas de bons contos de suspense e nem uns laivos de romance ecologista são deixados de fora de um livro que com o seu imaginário propositadamente soviético podia não destoaria em prateleiras ao lado de um Tom Clancy. Mais um livro que remete a discussão sobre géneros literários aos bons livros e aos maus.

Tudo é servido com a consciência que este livro é apenas o primeiro de uma trilogia e portanto uma introdução. É aqui que está a frustração. De tão habituado a um festim de letras e papel, Wolfhound Century é poupadinho quanto baste, para mesmo assim pedir uma pausa e reflexão antes de se embarcar no segundo volume.

Thursday, April 24, 2014

Dia do Livro (Atrasado)


Ontem, dia 23 de Abril, foi o dia do Livro e do Direito de Cópia. Não é que tenha deixado passar a efeméride, mas andei-me a debater sobre o rumo que lhe devia dar. A inspiração em que me baseei foi um artigo num blog da página do Guardian, intitulado Five perfect books for men who never read. Segundo este artigo, que se refere, penso, ao universo britânico, cerca de um terço dos homens não leu um livro depois de sair do sistema de ensino. Assim sendo, o autor propõe uma lista de cinco livros para que estes homens recuperem hábitos de leitura.

O desafio a que me propus foi o de executar uma lista semelhante em português. Os critérios que usei para me balizar foram o de já ter lido o livro, de ser de um autor português (o meu conhecimento de outros lusófonos é muito limitado), não ser de poesia, não repetir autores e ser de leitura fácil, sem com isso querer dizer simplória. Ao contrário do autor do blog, deixei de fora exercícios estilísticos como o Finnegan's Wake, o que quer dizer que Lobo Antunes não figura aqui.

Segue abaixo a lista com um pequeno texto explicativo.

-Auto da Barca do Inferno, de Gil Vicente
Para quem anda afastado da leitura, nada como voltar aos bancos da escola, só que agora sem "ter" de ler e antes por "querer" ler. Esta é das obras obrigatórias a (re)ler. Sendo uma peça de teatro está escrito essencialmente em discurso directo, o que simplifica a leitura. Apesar dos quatro séculos dificilmente perdeu o seu tom humorístico.
-O Primo Basílio, de Eça de Queiroz
Sem o estigma d' Os Maias e sem a conotação de crítica d' O Crime do Padre Amaro, é uma obra cujo realismo das relações de Luisa e Basílio chega a roçar o, para a época, erótico. A escrita não tem o peso de nenhuma de outras obras mais conhecidas do autor, e a leitura é fluída q.b.

-Os Bichos, de Miguel Torga
Dificilmente a escrita fica mais rude, mais simples e mais cheia do que nos contos de Torga. Não há português que não perceba, seja doutor ou pedreiro, nem que não reconheça as dores dos bichos. A estrutura de contos ajuda também.
-Crónica dos Bons Malandros, por Mário Zambujal
Quem não gosta de boa malandragem? Tem pequenos criminosos, grandes sonhos e um amor eterno. Tudo servido em doses generosas de linguagem de rua, sem cair no uso do descontrolado do calão e sem resvalar para a pieguice. 

-O Banqueiro Anarquista, de Fernando Pessoa
Um exercício de prosa curioso. Poderá não saltar imediatamente à vista a contradição do título, mas se lhe chamássemos O Banqueiro Comunista, então despertaria interesse. É um livro pesado que pesa pouco. O foco não será tanto na contradição do título, que o visado de resto se esforça por mostrar que não existe, mas em tempo de crises e soluções imediatas, vale mais do que muitos tratados sobre o que é o que parece ser.

Friday, March 21, 2014

Liberdade ou Morte - Nikos Kazantzakis


Houve quem certa vez me tivesse revelado que gostava de ler as minhas opiniões por as achar especialmente idiossincráticas. Confesso que interpretei o comentário de uma forma mista. Tal comentário, não constituindo um elogio, também não era propriamente um insulto, e despoletou em mim uma análise mais cuidada do como andava a opinar. O que me apercebi é que havia uma grande tendência de moldar o que lia ao mundo em meu redor. Menos mal, pensei, mas até que ponto é que não estaria a deturpar a leitura? Como consequência, os comentários por aqui tornaram-se mais espaçados e menos idiossincráticos.

Teria sido muito fácil dobrar toda a obra Liberdade ou Morte a uma leitura à luz dos dias de hoje. A luta dos cretenses contra o ocupante Turco é por demais comparável à situação grega, desde a violência exercida pelo ocupante, o nojo que este sente para com o ocupado, o pavor à terra ocupada, o olhar para o lado das grandes potências, todas elas mais preocupadas com a grande política do que com o sofrimento de um povo que prefere ir para as montanhas e morrer... Como disse, seria demasiado fácil!

Essa facilidade é-nos transmitida pela escrita apaixonada de Kazantzakis, cretense que nos transmite uma Creta que é mais do que o simples palco para a sua narrativa. Creta é, quando acabamos de ler a última página, ela própria uma personagem. Lida que está esta obra, é claro que para aqueles lutadores pela liberdade a terra onde nasceram é muito mais do que isso. É uma mãe, como alguns lhe chamam, tem uma pureza de sangue, como nos relembram os mais velhos, tem uma respiração própria, como amaldiçoam as autoridades turcas, e tem humores. Maus humores, quando o vento sopra de Sul, prenúncio de tragédias na obra de Kazantzakis. Um vento quente, que trás areias de desertos longíquos e que não deixa dormir homens nem mulheres, perturbando-lhes os pensamentos.

Terra de revoltas e capitães assombrados pelos capitães de outrora, o mais impressionante exemplar desta espécie é o capitão Micaelis (que de resto empresta nome e título ao texto original), proprietário de um estabelecimento comercial, nos intervalos entre revoluções, e terror dos turcos, a tempo inteiro. Filho do velho capitão Sifakas, homem que deu um batalhão de mártires à causa da independência, vive na capital, Cândia, onde tem a loja já mencionada e a casa para onde se retira todas as noites e que partilha com a mulher, o filho mais novo e a filha, que se esconde do pai por ordem deste, desde que entrou na puberdade. O Capitão Micaelis leva a mais austera das vidas que se possa imaginar. Homem pouco dado a excessos, reserva na sua agenda apenas duas semana por ano, quando subjuga sempre o mesmo grupo de foliões a partilhar com ele de comida, bebida e música na sua cave. Mulheres nem vê-las, semeadoras de discussões que são.

A Creta do Capitão Micaelis não é uma Creta qualquer. Apanhada durante a ocupação otomana, sem que a Europa humanista ou a Rússia ortodoxa oiçam e atendam aos seus apelos de ajuda. Nem da Grécia depauperada de meios militares, fortuna ou influência política virá o auxílio para libertar a ilhar. Assim, em Creta sofre-se e luta-se como se pode, dando à ilha os verdadeiros cristãos que a libertarão, um dia, e celebra-se quando a mulher de um dos altos ocupantes de converte. Pouco importa que ela questione a beligerância cretense à luz do Envangelho de Paz que lhe serve de motivação religiosa. Creta é uma coisa, os cristãos outra.

Que almas se digladiam pois na Semana Santa em que se inicia a acção? Nuri Bei e o Capitão Micaelis, irmãos de sangue e homens que se odeiam profundamente. Homens condenados a defrontarem-se, pressionados pelos seus irmãos de religião, que prometeram procurar a vingança nos outros. Só que Creta é uma panela de pressão e o capitão Micaelis fogo demasiado forte. Com ele por perto, todas as outras personagens mudam de personalidade. Com ele no meio da acção a pressão aumenta até que é necessário que a válvula salte e Creta experimenta outra revolução. Fogem homens para as montanhas, morrem capitães, fazem-se capitães e os políticos entram em cena para tentar a paz e os onzeneiros entram em cena para aumentarem os seus lucros. Como eu dizia no início, demasiado fácil de encontrar paralelismos quase duzentos anos passados...

A escrita de Kazantzakis, ele próprio um filho da ilha, é como a figura do capitão Micaelis: austera, sem palavras desnecessárias, rude no falar e precisa no que deixa por dizer, sofrida e atormentada pelo fantasma de fazer justiça aos seus antepassados, transmitindo na perfeição essa dor que os filhos desamparados de uma civilização subjugada sentem. Através da pena de Kazantzakis somos levados a sentir essa dor, mesmo que nas suas obras ele renegue e vote ao opróbrio todos quantos os que preferem segurar a pena à espingarda, os que confiam nos livros sobre a ignorância, os que não fazem do sangue nas veias o veículo racional por detrás de cada uma das suas acções. Pela pena de Kazantzakis, a luta de Creta é muito mais do que a luta de Creta. Aqueles homens, a dada altura, não lutam pela ilha. 

É o velho Sifakas, no seu leito de morte,  que nos leva a descobrir por que se luta em Creta. É aquele cadáver que nos mostra os capitães de terra, mar e artes a relatarem as suas vidas de aventura onde lutaram não pela terra, não por religião, mas sim e apenas para poderem ser homens. Homens do sue destino, não ovelhas presas entre o cajado do pastor, as dentadas do cão e as mordeduras dos lobos. "Liberdade ou Morte", o lema debruado em tons escarlates sob o fundo negro da bandeira artesanal do capitão Micaelis, as únicas palavras que o velho Sifakas alguma vez aprendeu a escrever e apenas para poder escrever pelo seu próprio punho o seu testamento. Nas ombreiras das portas, nas esquinas da sua aldeia, na fachada da igreja, por aí foi o velho Sifakas e a sua lata de tinta, "Liberdade ou Morte", um testamento e uma maldição.

Liberdade ou Morte, o grito de Creta, o grito dos Homens, o lema inacabado com que o livro fecha, gravado que está indelevelmente na mente do autor. Seria fácil, nos tempos carneiros que vivemos de tecer considerações idiossincráticas sobre esta obra. Seria demasiado fácil. Tão fácil que não o vou fazer.

Wednesday, February 26, 2014

Cordeiro, o Envangelho segundo Biff, o amigo de infância de Jesus Cristo - Cristopher Moore


Quando um dia cheguei a casa este livro estava lá à minha espera. Aparentemente tinha sido uma pechincha e parecia ser um livro de leitura ligeira, pese o número de páginas, o que fez com que alguém à procura de se (re)iniciar no ritual da leitura o tivesse adquirido.

De facto, a leitura que aqui se encontra é ligeira. O livro assume-se como um exercício sobre o que poderia ter sido a vida de Jesus Cristo nos anos que antecedem a sua vida pública, tudo visto pelos olhos daquele que seria o seu melhor amigo de infância. Uma máxima de quem quer vender livros é que tem de incluir pelo menos uma de duas categorias: sexo ou religião. Neste caso inclui os dois, mas não com a fórmula de aproveitamento que originou a máxima descrita, sem a aproveitar para o escândalo, e entregando um documento que, pese uma escrita claramente para uma facção sub-16, pode bem até ser lido na catequese.

Há laivos de religião, ou não abordasse o livro a figura da principal religião monoteísta da actualidade, e há laivos de sexo, ou não se focasse no desenvolvimento da personagem, com particular incidência sobre a sua adolescência e primórdios da fase adulta. A forma como os aborda é assumidamente hipotética, com laivos de ridículo, fugindo à satirização e colocando uma seriedade cómica nas incidências que fazem o leitor esboçar sorrisos e pensar sobre o que é dito, recorrendo para tal a uma duo de personagens que juntas parecem uma dupla cómica, mas que se assumem como a parte séria e parte cómica.

Quem são então estes dois personagens? Biff e Jesua (sim, Jesua, já lá vamos, mais à frente), chegados à idade em que escolhem uma profissão (cerca de 10 anos) decidem embarcar numa viagem pelo mundo à procura dos três magos do oriente, que haviam visitado Jesua (já lá vamos...) aquando do seu nascimento. A opinião é que estes magos possuem conhecimento que ajudarão Jesua a assumir-se como o Messias do povo de Israel. Até aqui, tirando a viagem em redor do mundo e o Biff, nada de novo.

As incidências da viagem acabam por ser um pouco uma metáfora do que seriam os próximos séculos. Por um lado Jesua vai aprofundando os seus conhecimentos filosóficos, aprendendo o que pode do Confucionismo, do Hinduísmo e do Budismo, enquanto Biff vai-se tornando uma espécie de super-ninja, destinado a proteger o seu amigo e a ajudá-lo com uns pequenos truques. Religião, ilusionismo e artes marciais, que mistura invulgar e, à partida inesperada. Pelo meio há umas confusões que envolvem anjos e que pretendem transmitir alguma lógica à narrativa.

Abordemos então os méritos. O livro foge aos habituais chavões das teorias da conspiração, ou da figura de Cristo como apenas mais um homem, apesar de esta segunda ser assumida ao longo da narrativa, e fonte de um intenso debate interno na figura de Jesua. Neste aspecto, as dúvidas de um homem condenado à nascença a ser o salvador do seu povo, o conflito entre o Homem e o Filho de Deus, estão muito bem colocadas, havendo uma aura quase pedagógica na escrita sobre a aceitação que alguns deveres transcendem as nossas vontades. A este confronto moral, há regra geral o mundo material, na figura de Biff, a figura em que a tentação vence sempre. Virtude e perdição lado a lado, de forma acessível e nada moralista.

Outro dos méritos passa claramente por olhar para Oriente. É do cânone Bíblico que vieram os magos do oriente para o adorar. O que não se aborda muito é quem eram e donde vinham esses magos. Christopher Moore pegou nas três principais filosofias/crenças do Oriente que sobreviveram até hoje desde o pré-cristianismo e atribui uma a cada mago. Se correlacionando com a informação Bíblica isto poderia indiciar uma alegoria do reconhecimento de Cristo pelas outras grandes escolas que sobreviveram, convém refrearmo-nos e relembrar que esta é assumidamente uma obra de ficção. Acontece que, de uma forma bastante positivista, lança o debate sobre as bases filosóficas da mensagem de Cristo, para todos os efeitos um Judeu que prega uma mensagem tão dispar do Judaísmo mais ortodoxo do seu tempo. Aliás, passem as imprecisões históricas e as situações cómicas, e é fácil acreditar que a coisa até se podia ter passado assim. Se refiro no início do parágrafo que a virtude é olhar para o Oriente, tal deve-se ao facto de o mais frequente ser comparar a génese do Cristianismo com o paganismo romano a Ocidente da Judeia. Nesse sentido, este livro de Christopher Moore lança, de uma forma suave e despretenciosa esse debate num público jovem.

Acontece que a tentativa de chegar a um público jovem leva a que o texto sofra com isso. Acho que há uma imbecilização transversal do discurso, uma escrita a dado momento demasiado relaxada e o final é todo ele precipitado. Para lá disso, não ajuda ler a edição portuguesa. Este foi daqueles livros que me deixou com imensa curiosidade de ler a versão original, porque me dá a sensação que o trabalho de tradução não foi o mais cuidado. Claro que há pormenores de tradução que não se podem querer passar como estão e pedem algumas cambalhotas. De destacar o nome do personagem secundário. Assumo que o autor, na sua versão original usa o hebraico Joshua, que em "americano" se pode encurtar para Josh, para se referir a Jesus. A versão portuguesa usar Jesua para substituir Jesus é simplesmente idiota. Acontece que esta idiotice, uma vez que o livro se foca nessa personagem, e repetida ad nauseum. Outras situações, de menor severidade, vão ocorrendo, que obrigam a que o leitor esteja familiarizado com alguns coloquialismos em inglês e consiga fazer a retro-tradução. Não é fácil, portanto.

Genericamente, é um livro que recomendo vivamente, pesem as dificuldades de leitura. Estas, para lá das idiotices da tradução foram mais agravadas pela linguagem demasiadamente focada para um público jovem. Apesar de questionar se esta é a forma mais apropriada, há exemplos de linguagem bem mais elaborada que está consideravelmente pior escrita. Tirei no entanto imenso prazer da exploração que o autor faz da vida de Cristo entre a infância e a vida pública e recomendo a todos que, se não tiverem outro motivo, leiam o livro por esse. Com uma mente aberta e lembrando-se que é um obra de ficção e não aspira a nada mais.

PS - De caminho, ler as palavras do autor sobre a génese da obra.

Friday, February 21, 2014

A Violação das Mulas - Maria O.


De uma desconhecida pena, que muito tem escrito mas de quem nada assumidamente se conhece, chega-nos este conto passado numa desconhecida vila portuguesa, com desconhecidos presidentes de câmara a quem lhes é reconhecida pouca seriedade, vereadores reconhecidamente ao serviço de si mesmos e toda uma panóplia de personagens a quem dificilmente se reconhece a possibilidade de ser um qualquer vizinho de quem lê estas linhas. Com tanto reconhecimento desconhecido, todo o conto é uma experiência estranha.

A aura, um pouco surrealista, que rodeia esta obra começa pelos nomes nada ortodoxos das personages. Denota-se uma vontade de anonimato camuflado por nomes prosaicos, como que a insinuar que aqueles personagens mais não são do que alegorias do professor frustrado, da empresária frustrada, do artista frustrado, do adoptado que quer conhecer os seus pais, do voyeur, dos políticos... Uma alegoria, em forma de vila, do ser português. Acontece que não há nada de alegórico em A Violação das Mulas. As personagens são apenas representações de si mesmas, superficiais como se quer das personagens de contos, deixando no leitor a vontade de querer saber mais sobre elas, a vontade de virar a página e descobrir que mais a mão que escreveu aquelas linhas tem para nos contar. O que se pode dizer, ultrapassado que esteja o choque das Possidónias, dos Zibetas e das Zibelinas, é que esses nomes que visam banalizar as personagens conferem-lhes a aura de estrelas e funcionam a favor do conto.

Face às personagens políticas, que cada vilarejo e lugar de Portugal tem, seria fácil tentar encontrar neste A Violação das Mulas uma tentativa encapotada de crítica social. Acontece que as personagens são tão hiperbolicamente descritas que qualquer tentativa de ridendo castigat mores se perde nesse exagero. Se alguma coisa, os estereótipos funcionam como os lugares-comuns que se trocam na mesa da esplanada sobre os mesmos e cumprem a função de interlúdio humorístico, uma espécie de limpa-palato para a obra maior contida no conto, se tal é possível. De que outra forma se pode interpretar o presidente apreciador de bolas de Berlim, da secretária apaixonada mais pelas bolas do que pelo poder, do vereador demasiado grande para a pequena corrupçãozinha da terrinha e demasiado pequeno para passar as suas fronteiras? Aliás, de que forma se podem estas tropelias comparar com as orgias do Quim, da Possidónia, da Zibelina e do amoroso homossexual David?

Quando procurava outras opiniões sobre a obra, uma crítica frequente era o uso desproporcionado do calão, que era forçado, que era abusivo. Não é nada disso! O calão está tão presente no nosso dia-a-dia como na obra. Não há um deturpar da situação para colocar o calão, a proporção é aquela, na medida certa, está bem usado e, acredite-se ou não, acrescenta uma grandeza quase Bocagiana ao conto. Se o uso de calão fosse o critério único para se avaliar uma obra, estaríamos perante um clássico esquecido da literatura portuguesa. Não é nenhum dos casos. Há que ponderar outros aspectos.

O primeiro aspecto que me apraz abordar é a fluidez da escrita, e quanto da mente que pensa a narrativa a mão coloca no papel. É notório que esta Violação das Mulas foi escrita sem a premeditação da escultura homónima no conto, de tal forma as mudanças de humor de Maria O. se fazem sentir no texto. Atentemos na minha anterior menção à crítica social. Se mencionei tal facto deve-se ao facto de a dada altura o texto ter esse tom, pelo uso de expressões, pelo destaque dado a certos aspectos, pela forma como se comportam as personagens. Só que depois entra em cena o romance impossível entre duas classes sociais distintas (e oh! como elas existem nesse Portugal que não é Lisboa), um romance de tal forma intenso que acaba por se tornar um quase pornográfico desfilar de situações, vistas pelo telescópio de um vizinho, antes de tudo acabar em drama familiar com laivos de romance policial.

Seria fácil utilizar o chavão de que este conto é um guião Tarantinesco, mas isso implicaria que as flutuações de género que desfilam no curto número de páginas do conto, haviam sido preparadas e pensadas anteriormente. A grande falha do conto reside na incapacidade de revelar essa premeditação. O conto entretém, está bem escrito, mas antiteticamente falha quando quer colar a crueza exagerada de umas situações com as cambalhotas de um enredo divertido. Está tudo dentro da caixinha do que é a ficção que diverte sem estupidificar. As características estão la todas, so faltou um bocado de cola!

Monday, December 16, 2013

Pano Cru - Pedro Brito


Um pintor com bloqueio de artista, de luto pela mulher que morreu meses antes e pressionado pelo galerista para acabar umas telas. Como sair deste bloqueio e reencontrar a musa inspiradora? Quais as armadilhas do percurso quando nunca se lidou com esse acontecimento marcante?

Uma história que dá umas piruetas valentes, apesar de a dado ponto ser previsível, mas bem montada e orquestrada, a ilustração a preto e branco entre o traço limpinho e as sombras de carvão.

Um bom trabalho a mostrar que os quadradinhos só são para crianças quando os seus autores assim o desejam.

Sunday, December 8, 2013

Mão Direita do Diabo - Dennis McShade



Dinis Machado mostrou-nos com a sua magnum opus, "O que Diz Molero", que a simplicidade da escrita não se encontra relacionada com uma simplicidade de ideias. Só que antes desse simples relatório, já a literatura portuguesa tinha sido presenteada com essa complexa simplicidade de Dinis Machado, através da sua quase homónima personna, através da trilogia das aventuras de Maynard.

Neste "A Mão Direita do Diabo" somos mergulhados nesse mundo de salões escuros donde se sai com o fumo do tabaco impregnado na roupa, guiados por um assassino profissional com uma úlcera, que só bebe leite, ouve música clássica e lê os clássicos, um poço de cultura no mundo abrutalhado de organizações criminosas onde se é pago para nada saber e nada ver.

Só que Maynard gosta de trabalhar sozinho. Não se liga com outros, não segue a carneirada. Maynard é uma ilha de inteligência num deserto de cúpida ignorância. Onde os outros lhe dizem para se juntarem, para se alinharem, ele teimosamente recusa-se. Não admira que o estilo adoptado seja simples. Publicado pela primeira vez em '67, este policial em estilo rasca tinha todos os ingredientes para nunca ver a luz do dia. Não admira que se passe então numa América vaga, onde os mafiosos são todos italianos, onde quem muda de identidade são os maus da fita, e o seu autor um americano desconhecido que não levante suspeitas.

Dinis Machado pode não ter publicado muito, mas o que publicou são páginas que se devoram e nos deixam a salivar por mais. A verdadeira mão direita do Diabo é a que escreve com esta simplicidade tão complexas figuras e nos fazem ler um livro numa noite e ansiar pelo próximo.

Wednesday, November 20, 2013

A Ironia do Projecto Europeu - Rui Tavares



Rui Tavares tem o dom de aproximar pessoas da esquerda e da direita, nestes tempo de clivagem que vivemos. Odiado por uns e outros, as principais razões para esse ódio prendem-se com o seu comportamento aquando do recente naufrágio legislativo do Bloco de Esquerda. Só que Rui Tavares não tem sido incoerente consigo mesmo, não no seu desempenho enquanto euro-deputado. Nesse aspecto Rui Tavares é das poucas vozes que dentro de portas se dedicam a escalpelizar e a pensar as questões europeias.

Este livro, lançado no final de 2012, no auge da crise económica (sem sabermos bem onde estamos na crise política) que abala a Europa, é a sua visão sobre os acontecimentos. É pena, por um lado, que não haja uma figura da direita que se lhe junte, uma voz que fosse com ele em Portugal, o que Cohn-Bendit e Verhofstadt são na Europa e que levou à edição, quase em simultâneo do seu manifesto For Europe.

Na ausência de vozes sonoras a equilibrar a orientação ideológica, fica-nos portanto a voz de Rui Tavares, historiador de profissão e, até às próximas europeias, eurodeputado de vocação. Não um eurodeputado do estilo populista, na boa onda dos Farages desta vida, mas um dos que sentem a Europa. Como historiador que sente a Europa, Tavares dá-nos neste livro aquele que pode ser um óptimo resumo do que tem sido a construção europeia, as suas virtudes e as suas falhas, tudo de uma forma acessível, com uma escrita leve na forma e cheia no conteúdo, que nos faz chegar a meio do livro sem nos apercebermos do tempo a passar, e com a percepção clara de como nos falta saber tanto do mundo em nosso redor.

Nenhuma visão, por mais bem itencionada que o seja, consegue ser desligada das visões pessoais de quem a transmite. Rui Tavares consegue no entanto que as lições de história o sejam e que as suas conclusões pessoais o pareçam, para que o leitor não se confunda. E com isso mostrar que uma escrita ideológica não tem de ser uma escrita doutrinária. Depois de ler este livro eu quero saber o que pensa o outro lado, mas do outro lado ninguém fala.

É uma leitura, em vésperas de eleições europeias, fundamental para portugueses em Portugal e no estrangeiro (lembrar que malta emigrada na UE, vota onde mora), especialmente face ao clima de desinformação que nos rodeia. A verdade é que somos emprenhados pelos ouvidos que a culpa é "de Bruxelas", mas onde começa e acaba a culpa de Bruxelas, e qual das Bruxelas falamos? Não importa o quadrante político, este livro é de leitura obrigatória!

Wednesday, November 13, 2013

The Structure of Scientific Revolutions - Thomas S. Kuhn


A primeira coisa que me apraz dizer sobre este livro é que é um livro antitético: uma leitura leve muito pesada. 

Para um livro que representou uma pedrada no charco na forma como se interpreta a evolução da ciência, lê-lo passados 50 anos não tem o mesmo sentimento de revelação. Em grande parte porque o que ele contém foi interiorizado em sucessivas gerações de cientistas e aspirantes a tal. Não há, para quem tenha tido um ensino científico, um sentimento de ruptura, antes de se rever no que ele descreve. Provavelmente porque sempre foi assim e ele se limitou a constatar o que via.

A leitura do livro pede no entanto, para ser mais dinâmica, que se tenha algum conhecimento científico, nomeadamente ao nível da física, isto porque Kuhn, antes de ser um historiador era um cientista. Essa dupla formação deu-lhe certamente uma vantagem que outros seus contemporâneos não tinham e ajudaram a que ele conseguisse o tal sentimento de criar uma empatia com quem tenha passado pelos labirintos da ciência.

Que o livro tenha perdido o seu tom de nova teoria, sendo absorvido por todos e tornando-se no paradigma da evolução científica, perdendo com essa cristalização o seu carácter refrescante é provavelmente o maior triunfo da obra. Pena que com isso tenha de se remeter para a categoria da curiosidade histórica.

Thursday, October 10, 2013

A Gaiola Dourada

Setembro foi o mês de andar para trás e para a frente, o mês das férias, o mês dos amigos. Foi também o mês em que aproveitei para ver o fenómeno cinematográfico da época estival. Sim, desloquei-me ao cinema para ver A Gaiola Dourada.

Pretendia começar este comentário revelando alguma incredulidade sobre o facto de ser o fenómeno que foi. No entanto dois factores contribuiram, após alguma reflexão, para que esse espanto se afastasse.

O primeiro é que a atitude dos portugueses para com o seu cinema (e se fosse só isso...) fica traduzida pelo comentário que ouvi na fila para comprar bilhetes, e que passo a transcrever:

"-Podíamos ir ver aquele filme português - diz o filho.
-Para quê? - pergunta o pai - Isso qualquer dia dá na RTP e podes ver nessa altura."

Volto a frisar que o diálogo é verídico!

O segundo é que a este filme é filho de uma das grandes escolas, e certamente um dos mais pujantes mercados cinematográficos, senão do mundo, pelo menos da Europa. Escola e mercado justificam a qualidade do produto final. O público alvo deste filme francês é um público habituado a ter qualidade, quantidade e variedade.

Combinando a atitude depreciativa do público com todo um trabalho feito para entreter sem aspirar a grandes vôos, não será pois de estranhar que a Gaiola Dourada passe por um grande evento cinematográfico... em Portugal. (Isto mesmo excluindo uma certa histeria que se demonstra quando alguém de fora fala de nós.)

Confesso que me parece que o filme seja um bocadinho menos do que aquilo que fazem dele. Por outro lado, pode ser exatamente o filme que é preciso. Ou seja, aquilo que não passa de um filme banal do circuito comercial francês, daqueles que se fazem às pazadas, apenas para se ter uma tarde de Domingo bem passada, tem neste caso tem a particularidade de nos, enquanto figura colectiva, tocar e com isso nos levar a querer passar essa tarde numa sala às escuras.

Enquanto filme tem toda uma arquitectura, ao nível do guião, e toda uma fotografia que de facto não são usuais por terras lusas, desenhado como produto de entretenimento alcançável por todos, sem almejar a uma grande reflexão. Assim de repente, a coisa mais parecida que me lembro de ter visto foi A Bela e o Paparazzo, uma espécie de Notting Hill à portuguesa.

Ao desvalorizar o sururu que se fez em torno d' A Gaiola Dourada, não estou no entanto a desvalorizar o filme. Aquilo que em França é um produto de nível mediano, em Portugal passa por um produto de alto valor. Porquê? Bom, em primeiro lugar porque o valor do público está transmitido no comentário daquele pai, que eu citei ali em cima. Sem um público é impossível ter um cinema. De nada vale chorarmos o que não temos, quando não o temos porque não queremos. Quando se vai ao cinema para se ver a "prestação" da Soraia Chaves n' O Crime do Padre Amaro, um dos piores favores que se fez à obra de Eça, e se deixa às moscas O Barão, a única surpresa é ainda haver uns carolas a querer fazer filmes. 

Já no caso d' A Gaiola Dourada, o seu triunfo é ser precisamente aquilo que não pretende ser: um tratado de, chamemos-lhe assim, portugalidade. A Gaiola Dourada é o retrato de uma determinada geração de portugueses que fugiram à procura das oportunidades que não tinham em casa. Como tal há de todos os tipos, desde o português que abusa dos portugueses, retratado em pequena escala pelo dono do café, mas que serve de perfeita alegoria para outras situações mais... complexas, temos as gerações envergonhadas dos seus pais, mais envergonhadas do que o próprio meio em que se inserem, temos as coscuvilheiras, temos, no fundo, um pequeno Portugal que se mudou para os arredores de Paris e que guarda todas as virtudes de um Portugal pequeno em que era proíbido sonhar e ousar ser mais. Essa proibição está bem patente e vincada nas personagens principais, também elas bem alegóricas, da mulher-a-dias e do pedreiro, que quando lhes cai uma herança e uma promessa de regresso tranquilo a Portugal, o seu primeiro pensamento é "o que é que os outros vão pensar". É um filme de estereótipos e creio ser impossível qualquer luso-descendente dessa geração de 70/80 não ver ali os pais, os tios, uns primos, os colegas e tantos, tantos outros. É impossível aquela luta dos filhos para que os pais pensem em si não ser reflexo do que se passa em tantas e tantas casas onde filhos criados com acesso a cultura, com escola, com saúde, não tentem agora dar aos pais aquilo que estes se recusam em lhes oferecer. 

A Gaiola Dourada não pretende ser esta reflexão sobre como uma geração se castiga, não ousa sonhar, não ousa querer e ainda por cima divide-se entre os que tudo dão e os que tudo invejam. Nessa ausência de pretenciosismo reside o grande triunfo desta obra. Gil Vicente, pai do teatro português, tinha por lema ridendo castigat mores, a rir se castigam os costumes, e é nessa linha de representação que este filme desembarca. Sim, tem aquela cena no Douro, totalmente despropositada e escusada, mas nenhuma caricatura de portugueses ficaria completa, sem o afamado banquete na aldeia.

Friday, July 19, 2013

Doces Flagelações, Anónimo


A literatura de cariz erótico (ou pornográfico consoante o grau de moralismo) é algo que terá estado tão dormente quanto a vontade do ser humano em se excitar. Recentemente, no entanto, tornou-se um produto não só de consumo massificado, como até de um certo estatuto. Os mais desatentos poderiam pensar que tal se devia a um recém-descoberto interesse pelas obras de Miller, Nin ou outro autor consagrado. Infelizmente o motivo está abaixo, muito abaixo, da qualidade de escrita desses monstros sagrados.

Por outro lado, estas novas modas literárias tendem claramente para reinvenções da roda. Esse cariz de redescoberta tem a vantagem de fazer com que se descubram textos perdidos em prateleiras dos fundos que assim podem ver a luz do dia. Penso ser o caso deste Doces Flagelações, publicado pela 7 dias 6 noites. Penso porque denoto no livro uma certa ausência de ano de primeira publicação, ou título original, ou referências ao desconhecido autor, qualquer elemento identificativo que permita encaixar a obra temporalmente.

Face a comentários anteriores, poderá este livro ser um clássico esquecido? Dificilmente! Aliás, penso que consoante a interpretação que cada um fizer da dualidade erotismo/pornografia, este livro até poderá tender mais para a segunda do que para a primeira categoria, fugindo muito mais do virtuosismo sensual de Miller e estando muito mais próximo da narrativa libertadora de uma História de O, com este clássico a poder ser a obra que mais definirá a prateleira onde arrumar o livro em apreciação: quem olhar para o clássico de Pauline Rèage como uma obra erótica, então olhará da mesma forma para este livro.

Chamar no entanto nomes clássicos da literatura para a apreciação deste livro acaba resultar num chamar Boogie Nights para uma discussão sobre o "Fim de semana Lusitano": aquilo até se relaciona, mas só mesmo muito vagamente! No entanto, o facto de não estar escrito em troglodita faz com que uma comparação com o impulsionador da moda da literatura de "tau tau" seja infamemente injusta.

Quando digo que não está escrito para trogloditas relembro o comentário anterior que isto não é um clássico esquecido da literatura! É isso sim, uma obra que assume um propósito claro, diferente do de vender um número largo de cópias, e vai direito a ele assumindo que os leitores têm um cérebro plenamente funcional e que não são analfabetos. Exemplos disso é a forma como a adjectivação está reduzida ao essencial e a um bom uso de sinónimos de substantivos, que alternam entre os mais eruditos (púdicos mesmo) e os mais, chamemo-lhes "populares", com várias ocasiões em que a alternância se vai dando em crescendo com o estado de excitação dos intervenientes. Estas duas ferramentas de escrita acabam por evitar o uso de repetições excessivas, o que fazem deste livro uma obra muito fraca para jogos do tipo "um shot de cada vez que".

No que a personagens diz respeito, não há aqui grandes preocupações em dar profundidade às mesmas. Para quem acha que isso é um defeito, sejamos francos, face ao propósito da obra é uma virtude! (Pegando numa analogia anterior, será que o espectador de Fim de Semana Lusitano está preocupado com a profundidade das personagens? A quem respondeu que sim, curem-se!) Assim sendo, acabamos por ter praticamente uma personagem por capítulo da obra, todas residentes numa localidade da Inglaterra Industrial e a obra mais não é do que a forma como estas interagem umas com as outras para satisfazerem os seus desejos, desde os que recém descobertos a outros mais requintados com o passar dos anos, todos uma declarada afronta aos mais acesos discípulos da moral e bons costumes.

Essa afronta, o principal móbil da obra, está logo bem patente no acto de compra do livro, e o seu selo de "proíbida a venda a menores de 21 anos". Faz sentido. Mesmo à luz de uma sociedade que se quer e diz ser mais aberta, mesmo depois do porno-para-mamãs, este livro é para fazer mossa e ser lido às escondidas. De tal forma o é que me questiono mesmo se o autor anónimo será mesmo da altura do livro e não alguém bem mais contemporâneo, tal a forma como o livro consegue chocar as mais púdicas mentes e estimular as mais estimuláveis. A obra caracteriza-se por estar totalmente desligada de uma visão romântica. Aqui é só desejos e a satisfação dos mesmos, qualquer que seja o preço. Os moralismos e as reviravoltas sentimentais ficaram de fora e só perpassou o sentimento quase animalescos do prazer pelo prazer.

É pois um livro politicamente incorrectíssimo. Animais e excreções à parte, penso que muitos desejos mais desbragados encontram lá o seu capítulo, desprovidos de candura ou promessas de redenção. Não fará os leitores comprar mais dois volumes, mas é bem capaz de levar a releituras!

Thursday, June 13, 2013

Quando o Diabo reza - Mário de Carvalho


A melhor forma de começar a falar deste Quando o Diabo reza, de Mário de Carvalho, é retroceder trinta anos e falar sobre uma obra de outro Mário, esse Zambujal, e a sua Crónica dos Bons Malandros, porque no fundo esta obra é, por assim dizer, uma crónica de malandrinhos.
O paralelismo entre as obras está derramado sobre as escrita, desde os criminosos que falam como criminosos, como disse Ricardo Araújo Pereira, ao esquema rocambolesco com imprevistos de última hora. A única coisa que falta é a história dos personagens, mas ao contrário das personagens de Zambujal, aos criminosos de Carvalho falta-lhes história. Não que tenham muita. Facilmente se percebe que não há ali muita história para contar,  que não são vítimas das amarguras da vida, personagens trágicas, são apenas apologistas da malandragem, gente sem jeito para outras coisas, nunca ficando muito claro se por não quererem, se por não poderem. Ou dito de outra forma, onde Zambujal faz quase que uma apologia da malandragem, onde sentimos que podemos fazer amizade com os seus malandros, os malandros de Mário de Carvalho são gente que não queremos convidar para nossa casa desde o momento zero, ao momento final.
O centro da pequena malandragem de Carvalho é um velho. Um velho que se diz ser endinheirado apesar de nunca o sabermos e ficar sempre a impressão que a sua fortuna não será tão fortuna assim. Como velho que se diz ser endinheirado, num meio pequeno, esse velho é alvo do interesse de um grupo de meliantes e da própria família, que não se lembra dele até as contas começarem a chegar, até a vontade de comprar um carro ser grande, até... São esses malandros, nas palavras do autor, dois vadios, uma galdéria e duas irmãs, estas filhas do velho, uma que vive com ele, a outra que vive amarguradamente distante.
A narrativa decorre em Lisboa, com uma ligeira incursão aos arredores, mas pode ser num bairro qualquer onde haja uma igreja daquelas onde se paga o dízimo e que se especializam em pobres, porque os ricos vão para a outra (como a páginas tantas um dos vadios diz). Esta indefinição geográfica e a falta de história das personagens são o ponto em que as obras dos Mários, ambas narrativas da malandragem que facilmente se encontra nas esplanadas e ruelas de Lisboa, se afastam. Onde Mário Zambujal nos premiou com um romance curto, Mário de Carvalho brinda-nos com um conto longo.
Enquanto conto revela-se no entanto uma autêntica lição de como escrever. As personagens podem ser gente oca, mas não são vagas e indefinidas, a narrativa é bem estruturada e com um ritmo que encontra paralelismo na acção (de facto a fase inicial, em que se monta o palco para a farsa final, é de leitura um pouco mais lenta, mas torna-se mais fluída com o desenrolar da narrativa) e a escrita flutua com as personagens, sendo mais vadia com os vadios e galdéria com a galdéria, sem exagerar nem forçar. Ler este Quando o Diabo reza podia ser um acto de estar sentado numa esplanada a ouvi-los contar as suas aventuras e isso, essa arte de nos dar fatias da realidade que podiam ter sido vividas por nós, é uma sublime arte que merece ser apreciada.

Thursday, May 30, 2013

The Sandman - Neil Gaiman

Uma das leituras mais agradáveis que tive no ano passado foram os dez volumes de The Sandman (doravante tratado por o). No formato que é conhecido por novela gráfica, mas que ficaria melhor traduzido por romance gráfico, revelou-se uma daquelas obras que há muito mais que bonecada em livros de banda desenhada.
O facto de só agora vir falar de algo que li o ano passado, para lá de alguma preguiça que é visível no que não tem sido publicado, prende-se neste caso específico com o problema de falar das obras marcantes. O Sandman de Neil Gaiman é considerado uma das mais marcantes obras no capítulo das novelas gráficas, sentindo, nos meus círculos sociais, uma sensação de quase divino muito maior do que com outras obras.
O que senti ao ler esta obra é que dificilmente a narrativa poderia ser contada sem o suporte gráfico. Os desenhos acabam por ser muito mais do o suporte para a narrativa, tal como esta está num patamar diferente do de simples explicação para o desenho. O desenho é em si parte de como se conta a história. Há detalhes, mudanças de olhares, mudanças de roupa, subtilezas de discurso, que dificilmente se passam para o papel sem quebrar o ritmo da narrativa, sem recorrer a longas passagens narrativas. Nesta obra o mostra não contes (show don't tell) assume o seu explendor máximo porque não há a necessidade de dizer mais do que o essencial.


Ao nível da história fiquei também muito satisfeito. A narrativa está bem trabalhada, com uma mitologia própria que lhe confere credibilidade e é frequente darmos por nós a dada altura a olhar para personagens e a pensar "eu já vi esta em algum lado" e lá está ela, agora protagonista, numa escala menor um volume ou dois antes, ou vice versa. Face ao comboio de ilustradores (cada volume tem pelo menos três), esta atenção ao detalhe apenas valoriza mais a obra. E volta a introduzir uma subtileza difícil em texto corrido.

The Sandman, face ao foco que o ilumina, pode ser entrar em Neil Gaiman pela porta grande e correr o risco de não conseguir a mesma satisfação com outras obras. So que essa entrada gloriosa deixou vontade de ler mais e a pergunta com que fico é mesmo como o menino se sai na prosa!

Thursday, April 11, 2013

The Hobbit, An Unexpected Journey

Enquanto se espera pelo segundo filme da trilogia d' O Hobbit, deixo aqui aquilo que é a minha opinião sobre o primeiro filme, O Hobbit - An Unexpected Journey (Uma Viagem Inesperada, em português). Levantando um pouco o véu, algumas das queixinhas que serão aqui apresentadas irão, quase certamente, ser repetidas nos próximos filmes. O atraso, pese alguma ronha em escrever, deve-se fundamentalmente a uma recolha de argumentos esgrimidos em conversas por aí.
Nessas trocas de argumentos acabei por formular a páginas tantas uma pergunta que será o ponto de partida para esta opinião. A questão é: se alteras o sentido de uma obra aquando da sua adaptação, a adaptação mantém validade? 
Neste caso a pergunta faz (talvez estranhamente) sentido. Isto porque há duas formas de ver este filme: ou como a obra que dá origem a O Senhor dos Anéis ou como a prequela d' O Senhor dos Anéis. Podem parecer a mesma coisa, mas não o são. 
Como alguém que já leu as obras várias vezes e que conhece, mesmo que vagamente, o que levou a uma e à outra, encaro O Hobbit como "a obra que dá origem a" e não "a prequela" e isso traduz-se nas frustrações que trouxe do filme. 
Essencialmente, eu não acho que O Hobbit seja apenas um penduricalho, uma espécie de volume 0 d' O Senhor dos Anéis. Ao fim de 33% dos filmes, perto de 55% do livro estará adaptado, e aqui questiono-me se o verbo é mesmo adaptar. Poucos (ou mesmo nenhum) episódios do livro estão conforme o livro (nem sequer o jantar inicial sobrevive à fúria adaptativa). A vontade de adaptar é extensível aos anexos d' O Senhor dos Anéis. Quem pensa que os anexos d' O Senhor dos Anéis serviram apenas para aumentar volume desengane-se! Serviram antes de mais para sugerir coisas giras que podem ser lá enfiadas para o meio sem qualquer respeito pela narrativa.
Numa conversa com um amigo, ele queixava-se que "faltava aquele efeito surpresa de ver a Terra Média à nossa frente". Apesar de perceber o que ele quer dizer, aquilo que senti que faltava foi o olhar de um apreciador da obra. Esse olhar está bem patente n' O Senhor dos Anéis e serve de ponto de partida para se falar um pouco da linha que separa a fidelidade à obra da adaptação
Enquanto clássico da literatura infantil, O Hobbit apresenta uma estrutura toda ela muito dinâmica, com cada capítulo a corresponder grosso modo a uma aventura, toda ela narrada de uma forma linear e centrada nesse hobbit que parte com um grupo de anões à conquista de um tesouro numa montanha distante. Seria fácil imaginar que a transposição para o cinema seria muito mais fácil do que a d' O Senhor dos Anéis, mais do que pelas diferentes narrativas, mas mais por todo o peso que as emoções têm no segundo, as descrições mais exaustivas de paisagens e a própria complexidade das interacções das personagens entre elas e o mundo que as rodeia. Claramente, quando se começou a falar da expansão de uma obra apresentada num livro (e um volume) para três filmes, adivinhava-se já que se estava a fugir ao que seria normal numa adaptação (especialmente comparando com o facto de os seis livros - em três volumes - d' O Senhor dos Anéis terem dado origem apenas a três filmes). O que ocorre de facto é que se reescreve O Hobbit como uma obra subordinada a O Senhor dos Anéis (quando na realidade sucede o inverso). Esquecer qual das obras é que se encontra subornidada à outra dá origem à necessidade das contextualizações que esta adaptação a si chama. Isto se quisermos assumir as liberdades criativas tomadas como contextualizações e não deturpações, pois tal apenas é possivel se se entender O Hobbit como aquilo que ele não é: uma espécie, repito-o, de capítulo 0 d' O Senhor dos Anéis. O foco do livro não é como Sauron sobreviveu à Última Aliança de Elfos e Homens e da sua re-ascensão. O foco do livro não é de como Bilbo encontra o anel. O foco do livro não é de como os anões andam a fugir de um Azog (ou sua descendência) que morreu anos antes. Quem apenas vir o filme pensa que O Hobbit existe para que O Senhor dos Anéis possa existir. Repito-o, isso é uma premissa falsa. O Bilbo não decicidiu ir atrás dos anões devido ao apelo do seu lado "Took", ele foi praticamente empurrado por Gandalf e se ele corre porta fora não é por querer aventura é por ter medo das consequências de não honrar o contrato com os anões ao não chegar a horas ao ponto de encontro. Há uma grande importância dada ao "nome das espadas" e esquecemo-nos que a Sting ganhou o seu nome nas Misty Mountains, na fuga do Bilbo de Goblin Town. Há uma necessidade de dobrar a história para o Bilbo ganhar respeitabilidade entre os anões, e esquecemo-nos de um dos momentos em que tal acontece (e em que o anel toma algum protagonismo para tal acontecer). O sentido da história ficou dobrado no momento em que se achou pertinente mostrar o Radagast (e escuso-me de comentar trenós puxados por coelhos) e de como Mirkwood se tornou Mirkwood, de como houve necessidade de mostrar um Conselho Branco (outra vez adaptado) e de como provavelmente se sente a necessidade de vir a mostrar o assalto a Dol Guldur desviando-nos da essência do livro: a busca dos anões pelo seu tesouro e reino perdidos. Arrisco dizer, pelo que já foi revelado, que o Gandalf do início d'A Irmandade do Anel é um banana se ainda não percebeu quem é o Necromante!...
Portanto... O filme enquanto filme mais do que aguentar-se, é uma espectacular obra de aventura, com movimento, batalhas bem coreografadas e que não puxa muito pela cabeça. A fotografia é impressionante e a banda sonora mais uma vez assume o papel de personagem chave. No entanto, chamemos-lhe "Uma viagem inesperada", porque chamar-lhe O Hobbit leva a confusões com um livro cuja narrativa e finalidade diferem largamente daquilo que o autor do filme quis fazer. É um bom filme de aventuras, mas falha a toda a linha enquanto adaptação do livro.

Friday, February 8, 2013

Molecules at an Exhibition: Portraits of Intriguing Materials in Everyday Life - John Emsley


 Molecules at an Exhibition é a colectânea de uma série de quadros sobre moléculas, publicados pelo autor no The Independent, na sua rubrica Molecule of the Month. Neste livro as moléculas são apresentadas divididas em galerias, consoante os seus usos e aplicações mais correntes.

 O conhecimento de química dos leitores vai influenciar bastante a forma como se aprecia o livro. Para o leigo é um livro interessante, escrito numa linguagem acessível e que explica fenómenos banais de uma forma bastante perceptível e que ajuda a população em geral a perceber porque é que novos materiais, de uso corrente, consistem grandes desafios da ciência e da técnica. Para alguém com alguns conhecimentos de química avançada, o livro poderá, sob os holofotes da segunda década do século XXI, parecer já desatualizado. De facto, o livro colecciona textos escritos na sua maioria na década de 1990. Muitas das novidades já passaram e muitos dos desafios futuros ou já se resolveram ou foram colocados na gaveta das "boas intenções para mais tarde". Também o tom do livro pode parecer um pouco paternalista, não se inibindo o autor, nem sendo a isso obrigado, diga-se, de deixar o seu cunho opinativo sobre a natureza dos compostos em questão.

 É um livro que se recomenda a quem procura um pouco mais de conhecimento sobre o mundo que o rodeia, mas deve ser lido tendo presente que o texto não está actualizado e que de cada vez que se fala no "futuro", o futuro a que o livro se refere é hoje!

Tuesday, December 25, 2012

The War of the Worlds - H. G. Wells


The War of the Worlds, ou em português, a Guerra dos Mundos, da autoria de H.G. Wells é um daqueles livros que marcam. Não só pelas sua famosa adaptação para a rádio em 1938, mas por todo o legado que deixou na literatura e na cultura popular sobre Marte, invasões extraterrestres e os invasores.

Pode efectivamente ser considerado a obra seminal da literatura de invasão extra-terrestre, podendo encontrar-se aqui todos os temas e abordagens que gerações futuras iriam adoptar. Como todas as grandes obras, este War of the Worlds assume também a abordagem a grandes questões da sua época. De maior destaque são as do imperialismo e o evolucionismo.

No plano científico, há a grande questão da luta pelo Darwinismo. Publicado cerca de quarenta anos após "A Origem da Espécies" a Guerra dos Mundos coloca o domínio da Terra num plano de adaptação. Há a necessidade de adaptação dos marcianos a uma gravidade superior e a necessidade de sobreviverem às agressões biológicas a que a humanidade está sujeita há milhares de anos.

No plano político há a questão do anglo-centrismo. A forma como a sobrevivência do mundo depende da capacidade de a maior nação do mundo, isto é Inglaterra no auge do seu Império, sobreviver. Há aqui a forte mensagem de que os Impérios também caem e que apenas esperam pelos seus marcianos e de como há um tom de lamento, em vésperas da Iª Grande Guerra, por não se conseguir replicar a tecnologia alienígena.

A escrita assume um estilo profundamente descritivo em que o narrador anónimo nos narra, numa primeira parte, a invasão pelo seu ponto de vista, num outro momento pelo olhar do seu irmão e num momento final volta à sua própria visão. A escrita em si, podendo ser o que estava muito em voga há pouco mais de cem anos, corta muito a acção com as descrições. Dessa forma apesar de curta, há momentos em que nos sentimos sem sair do mesmo sítio, o que é uma pena pois queremos mesmo saber o que vai acontecer.

Resumidamente, numa escrita que pode não apelar à maioria dos leitores contemporâneos, The War of the Worlds é uma obra incontornável na introdução à Ficção Científica (ou à Ficção em geral) por ser uma obra que estabeleceu tónica e temas que seriam replicados ao longo de quase um século.