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Thursday, October 10, 2013

A Gaiola Dourada

Setembro foi o mês de andar para trás e para a frente, o mês das férias, o mês dos amigos. Foi também o mês em que aproveitei para ver o fenómeno cinematográfico da época estival. Sim, desloquei-me ao cinema para ver A Gaiola Dourada.

Pretendia começar este comentário revelando alguma incredulidade sobre o facto de ser o fenómeno que foi. No entanto dois factores contribuiram, após alguma reflexão, para que esse espanto se afastasse.

O primeiro é que a atitude dos portugueses para com o seu cinema (e se fosse só isso...) fica traduzida pelo comentário que ouvi na fila para comprar bilhetes, e que passo a transcrever:

"-Podíamos ir ver aquele filme português - diz o filho.
-Para quê? - pergunta o pai - Isso qualquer dia dá na RTP e podes ver nessa altura."

Volto a frisar que o diálogo é verídico!

O segundo é que a este filme é filho de uma das grandes escolas, e certamente um dos mais pujantes mercados cinematográficos, senão do mundo, pelo menos da Europa. Escola e mercado justificam a qualidade do produto final. O público alvo deste filme francês é um público habituado a ter qualidade, quantidade e variedade.

Combinando a atitude depreciativa do público com todo um trabalho feito para entreter sem aspirar a grandes vôos, não será pois de estranhar que a Gaiola Dourada passe por um grande evento cinematográfico... em Portugal. (Isto mesmo excluindo uma certa histeria que se demonstra quando alguém de fora fala de nós.)

Confesso que me parece que o filme seja um bocadinho menos do que aquilo que fazem dele. Por outro lado, pode ser exatamente o filme que é preciso. Ou seja, aquilo que não passa de um filme banal do circuito comercial francês, daqueles que se fazem às pazadas, apenas para se ter uma tarde de Domingo bem passada, tem neste caso tem a particularidade de nos, enquanto figura colectiva, tocar e com isso nos levar a querer passar essa tarde numa sala às escuras.

Enquanto filme tem toda uma arquitectura, ao nível do guião, e toda uma fotografia que de facto não são usuais por terras lusas, desenhado como produto de entretenimento alcançável por todos, sem almejar a uma grande reflexão. Assim de repente, a coisa mais parecida que me lembro de ter visto foi A Bela e o Paparazzo, uma espécie de Notting Hill à portuguesa.

Ao desvalorizar o sururu que se fez em torno d' A Gaiola Dourada, não estou no entanto a desvalorizar o filme. Aquilo que em França é um produto de nível mediano, em Portugal passa por um produto de alto valor. Porquê? Bom, em primeiro lugar porque o valor do público está transmitido no comentário daquele pai, que eu citei ali em cima. Sem um público é impossível ter um cinema. De nada vale chorarmos o que não temos, quando não o temos porque não queremos. Quando se vai ao cinema para se ver a "prestação" da Soraia Chaves n' O Crime do Padre Amaro, um dos piores favores que se fez à obra de Eça, e se deixa às moscas O Barão, a única surpresa é ainda haver uns carolas a querer fazer filmes. 

Já no caso d' A Gaiola Dourada, o seu triunfo é ser precisamente aquilo que não pretende ser: um tratado de, chamemos-lhe assim, portugalidade. A Gaiola Dourada é o retrato de uma determinada geração de portugueses que fugiram à procura das oportunidades que não tinham em casa. Como tal há de todos os tipos, desde o português que abusa dos portugueses, retratado em pequena escala pelo dono do café, mas que serve de perfeita alegoria para outras situações mais... complexas, temos as gerações envergonhadas dos seus pais, mais envergonhadas do que o próprio meio em que se inserem, temos as coscuvilheiras, temos, no fundo, um pequeno Portugal que se mudou para os arredores de Paris e que guarda todas as virtudes de um Portugal pequeno em que era proíbido sonhar e ousar ser mais. Essa proibição está bem patente e vincada nas personagens principais, também elas bem alegóricas, da mulher-a-dias e do pedreiro, que quando lhes cai uma herança e uma promessa de regresso tranquilo a Portugal, o seu primeiro pensamento é "o que é que os outros vão pensar". É um filme de estereótipos e creio ser impossível qualquer luso-descendente dessa geração de 70/80 não ver ali os pais, os tios, uns primos, os colegas e tantos, tantos outros. É impossível aquela luta dos filhos para que os pais pensem em si não ser reflexo do que se passa em tantas e tantas casas onde filhos criados com acesso a cultura, com escola, com saúde, não tentem agora dar aos pais aquilo que estes se recusam em lhes oferecer. 

A Gaiola Dourada não pretende ser esta reflexão sobre como uma geração se castiga, não ousa sonhar, não ousa querer e ainda por cima divide-se entre os que tudo dão e os que tudo invejam. Nessa ausência de pretenciosismo reside o grande triunfo desta obra. Gil Vicente, pai do teatro português, tinha por lema ridendo castigat mores, a rir se castigam os costumes, e é nessa linha de representação que este filme desembarca. Sim, tem aquela cena no Douro, totalmente despropositada e escusada, mas nenhuma caricatura de portugueses ficaria completa, sem o afamado banquete na aldeia.

Thursday, April 11, 2013

The Hobbit, An Unexpected Journey

Enquanto se espera pelo segundo filme da trilogia d' O Hobbit, deixo aqui aquilo que é a minha opinião sobre o primeiro filme, O Hobbit - An Unexpected Journey (Uma Viagem Inesperada, em português). Levantando um pouco o véu, algumas das queixinhas que serão aqui apresentadas irão, quase certamente, ser repetidas nos próximos filmes. O atraso, pese alguma ronha em escrever, deve-se fundamentalmente a uma recolha de argumentos esgrimidos em conversas por aí.
Nessas trocas de argumentos acabei por formular a páginas tantas uma pergunta que será o ponto de partida para esta opinião. A questão é: se alteras o sentido de uma obra aquando da sua adaptação, a adaptação mantém validade? 
Neste caso a pergunta faz (talvez estranhamente) sentido. Isto porque há duas formas de ver este filme: ou como a obra que dá origem a O Senhor dos Anéis ou como a prequela d' O Senhor dos Anéis. Podem parecer a mesma coisa, mas não o são. 
Como alguém que já leu as obras várias vezes e que conhece, mesmo que vagamente, o que levou a uma e à outra, encaro O Hobbit como "a obra que dá origem a" e não "a prequela" e isso traduz-se nas frustrações que trouxe do filme. 
Essencialmente, eu não acho que O Hobbit seja apenas um penduricalho, uma espécie de volume 0 d' O Senhor dos Anéis. Ao fim de 33% dos filmes, perto de 55% do livro estará adaptado, e aqui questiono-me se o verbo é mesmo adaptar. Poucos (ou mesmo nenhum) episódios do livro estão conforme o livro (nem sequer o jantar inicial sobrevive à fúria adaptativa). A vontade de adaptar é extensível aos anexos d' O Senhor dos Anéis. Quem pensa que os anexos d' O Senhor dos Anéis serviram apenas para aumentar volume desengane-se! Serviram antes de mais para sugerir coisas giras que podem ser lá enfiadas para o meio sem qualquer respeito pela narrativa.
Numa conversa com um amigo, ele queixava-se que "faltava aquele efeito surpresa de ver a Terra Média à nossa frente". Apesar de perceber o que ele quer dizer, aquilo que senti que faltava foi o olhar de um apreciador da obra. Esse olhar está bem patente n' O Senhor dos Anéis e serve de ponto de partida para se falar um pouco da linha que separa a fidelidade à obra da adaptação. 
Enquanto clássico da literatura infantil, O Hobbit apresenta uma estrutura toda ela muito dinâmica, com cada capítulo a corresponder grosso modo a uma aventura, toda ela narrada de uma forma linear e centrada nesse hobbit que parte com um grupo de anões à conquista de um tesouro numa montanha distante. Seria fácil imaginar que a transposição para o cinema seria muito mais fácil do que a d' O Senhor dos Anéis, mais do que pelas diferentes narrativas, mas mais por todo o peso que as emoções têm no segundo, as descrições mais exaustivas de paisagens e a própria complexidade das interacções das personagens entre elas e o mundo que as rodeia. Claramente, quando se começou a falar da expansão de uma obra apresentada num livro (e um volume) para três filmes, adivinhava-se já que se estava a fugir ao que seria normal numa adaptação (especialmente comparando com o facto de os seis livros - em três volumes - d' O Senhor dos Anéis terem dado origem apenas a três filmes). O que ocorre de facto é que se reescreve O Hobbit como uma obra subordinada a O Senhor dos Anéis (quando na realidade sucede o inverso). Esquecer qual das obras é que se encontra subornidada à outra dá origem à necessidade das contextualizações que esta adaptação a si chama. Isto se quisermos assumir as liberdades criativas tomadas como contextualizações e não deturpações, pois tal apenas é possivel se se entender O Hobbit como aquilo que ele não é: uma espécie, repito-o, de capítulo 0 d' O Senhor dos Anéis. O foco do livro não é como Sauron sobreviveu à Última Aliança de Elfos e Homens e da sua re-ascensão. O foco do livro não é de como Bilbo encontra o anel. O foco do livro não é de como os anões andam a fugir de um Azog (ou sua descendência) que morreu anos antes. Quem apenas vir o filme pensa que O Hobbit existe para que O Senhor dos Anéis possa existir. Repito-o, isso é uma premissa falsa. O Bilbo não decicidiu ir atrás dos anões devido ao apelo do seu lado "Took", ele foi praticamente empurrado por Gandalf e se ele corre porta fora não é por querer aventura é por ter medo das consequências de não honrar o contrato com os anões ao não chegar a horas ao ponto de encontro. Há uma grande importância dada ao "nome das espadas" e esquecemo-nos que a Sting ganhou o seu nome nas Misty Mountains, na fuga do Bilbo de Goblin Town. Há uma necessidade de dobrar a história para o Bilbo ganhar respeitabilidade entre os anões, e esquecemo-nos de um dos momentos em que tal acontece (e em que o anel toma algum protagonismo para tal acontecer). O sentido da história ficou dobrado no momento em que se achou pertinente mostrar o Radagast (e escuso-me de comentar trenós puxados por coelhos) e de como Mirkwood se tornou Mirkwood, de como houve necessidade de mostrar um Conselho Branco (outra vez adaptado) e de como provavelmente se sente a necessidade de vir a mostrar o assalto a Dol Guldur desviando-nos da essência do livro: a busca dos anões pelo seu tesouro e reino perdidos. Arrisco dizer, pelo que já foi revelado, que o Gandalf do início d'A Irmandade do Anel é um banana se ainda não percebeu quem é o Necromante!...
Portanto... O filme enquanto filme mais do que aguentar-se, é uma espectacular obra de aventura, com movimento, batalhas bem coreografadas e que não puxa muito pela cabeça. A fotografia é impressionante e a banda sonora mais uma vez assume o papel de personagem chave. No entanto, chamemos-lhe "Uma viagem inesperada", porque chamar-lhe O Hobbit leva a confusões com um livro cuja narrativa e finalidade diferem largamente daquilo que o autor do filme quis fazer. É um bom filme de aventuras, mas falha a toda a linha enquanto adaptação do livro.

Friday, September 16, 2011

Um Grito contra o preconceito.

Quem me conhece sabe como tenho uma aversão de morte a rótulos na arte. Há quem os use para provocar, quem os use para arrumar coisas em estantes e, pela mesma ordem de ideias, quem os use para se recusar a olhar sequer para eles.

O Queer Lisboa tem tudo o que é preciso para que uns olhem a salivar, outros se recusem a olhar e outros vejam nele a sua ilha de identidade. A minha opinião é que eventos como este podem ser úteis se devidamente conduzidos e com escolhas acertadas.

Tomei agora conhecimento que irá passar hoje, no âmbito deste festival o filme Howl, de Rob Friedman e Jeffrey Friedman.

O filme é um filme sobre muita coisa. Sobre poesia, sobre liberdade de expressão, sobre amor, sobre delisão, sobre viagens, sobre sentimentos e acontece que se foca num poema cujo autor era homossexual. A expressão dessa homossexualidade é um adereço no filme e nem isso no poema. Muito como se deseja que a encaremos e nessa óptica este deveria ser o filme do Queer. Uma escolha mais do que acertada.

Portanto, hoje à noite deixe o preconceito de lado e ponha-se a caminho do S.Jorge. Vai ver que os gritos de revolta que vai dar serão por o filme não passar fora do festival, como um filme dito normal.

Thursday, May 19, 2011

Deixa-me entrar, Tomas Alfredson


 Faz já muito tempo que não escrevo aqui, no entanto não tenho estado parado. Um dos motivos que me tem mantido afastado é a falta de palavras. Em parte para descrever este filme do sueco Tomas Alfredson.

 Será profundamente redutor dizer que este é mais um filme de vampiros. Este não é apenas mais um, este é o filme de vampiros com que todos os filmes de vampiros futuros têm de se comparar. E talvez alguns passados...

 Produto da indústria cinematográfica de onde a noite chega a durar uns meses, este filme de vampiros é mais um produto saído de uma manufactura: uma peça única e inigualável!

 Oskar é um jovem adolescente marginalizado e vítima das partidas de colegas, que vive sozinho com a mãe, que visita esporadicamente o pai e que é em público uma figura recatada e pachorrenta. No entanto sofre em silêncio na longa noite do Norte.

 Eli é uma nova vizinha de Oskar, que se mudou para o apartamento ao lado sensivelmente na mesma altura em que começou uma onda de assassíneos e tentativas particularmente grotescas dos mesmos. Logo aqui o filme começa a distinguir-se, pois não se faz segredo que o autor de tais actos é o pai de Eli e que o faz para lhe poder dar o sangue que ela precisa.

 Também não se esconde a relação que estabelece entre Eli e Oskar, uma relação de código morse, uma relação de confiança, uma relação de revelações e aceitação e uma relação em que se aprende a enfrentar os medos, mesmo que daí venham consequências trágicas.

 As longas estações nórdicas assumem-se como personagens neste filme e tal o devemos a Tomas Alfredson. Os vampiros adolescentes de Alfredson e a sua relação com o mundo dos mortais cintila pela crueza com que a violência do género é apresentada, a história de amor não entra no campo da lamechice e depois de Eli, Kirsten Dunst e a sua Claudia parecem freiras! O guião está escrito para quem consegue interpretar textos acima do 4º ano e a interpretação dos jovens petizes sai favorecida por isso.

 "Deixa-me entrar" agrada a quem gosta de histórias inteligentes, a quem gosta de um bom bocado de entretenimento, a quem gosta do género e a quem gosta de filmes onde as imagens são personagens e dizem cada uma mais de mil palavras.


Monday, June 21, 2010

Hard Candy, 2005



Dirigido por David Slade, este filme independente de 2005 conta-nos um encontro entre Hayley Stark (Ellen page), uma adolescente de 14 anos, e Jeff Kholver (Patrick Wilson), um fotógrafo profissional, os quais mantêm uma relação num chat.

Um dia decidem encontrar-se e Ellen revela-se bem mais do que uma simples e inocente rapariguinha. Num mirabolante desenrolar do enredo, ela acaba por se revelar mais o lobo mau, fazendo um genial jogo do gato e do rato com Jeff com um final diabolicamente... (Não esperavam que eu contasse pois não?)

O destaque do filme vai inteirinho para a interpretação de Page! A forma como ela constrói o 'lobo vestido de cordeiro' que Hayley se acaba por revelar é soberba e faz com que a interpretação de Wilson soe a insípida. Face ao enredo reduzido (contam-se cinco personagens, uma delas interpretada por Sandra Oh) até pode parecer que seria fácil, mas penso que já se viu muita gente grande a fazer má figura em papéis mais simples. Ellen Page iria fazer Juno depois deste filme, mas para quem viu esse filme e gostou, este acaba por suplantar.

Avaliação: 4/5
Tirada: "Jeff, play time is over... Now its time to wake up."