Ontem, dia 23 de Abril, foi o dia do Livro e do Direito de Cópia. Não é que tenha deixado passar a efeméride, mas andei-me a debater sobre o rumo que lhe devia dar. A inspiração em que me baseei foi um artigo num blog da página do Guardian, intitulado Five perfect books for men who never read. Segundo este artigo, que se refere, penso, ao universo britânico, cerca de um terço dos homens não leu um livro depois de sair do sistema de ensino. Assim sendo, o autor propõe uma lista de cinco livros para que estes homens recuperem hábitos de leitura.
O desafio a que me propus foi o de executar uma lista semelhante em português. Os critérios que usei para me balizar foram o de já ter lido o livro, de ser de um autor português (o meu conhecimento de outros lusófonos é muito limitado), não ser de poesia, não repetir autores e ser de leitura fácil, sem com isso querer dizer simplória. Ao contrário do autor do blog, deixei de fora exercícios estilísticos como o Finnegan's Wake, o que quer dizer que Lobo Antunes não figura aqui.
Segue abaixo a lista com um pequeno texto explicativo.
-Auto da Barca do Inferno, de Gil Vicente
Para quem anda
afastado da leitura, nada como voltar aos bancos da escola, só que agora
sem "ter" de ler e antes por "querer" ler. Esta é das obras obrigatórias a
(re)ler. Sendo uma peça de teatro está escrito essencialmente em
discurso directo, o que simplifica a leitura. Apesar dos quatro séculos
dificilmente perdeu o seu tom humorístico.
-O Primo Basílio, de Eça de Queiroz
Sem o estigma d' Os Maias e sem a conotação de crítica d' O Crime do
Padre Amaro, é uma obra cujo realismo das relações de Luisa e Basílio
chega a roçar o, para a época, erótico. A escrita não tem o peso de
nenhuma de outras obras mais conhecidas do autor, e a leitura é fluída
q.b.
-Os Bichos, de Miguel Torga
Dificilmente a
escrita fica mais rude, mais simples e mais cheia do que nos contos de
Torga. Não há português que não perceba, seja doutor ou pedreiro, nem
que não reconheça as dores dos bichos. A estrutura de contos ajuda também.
-Crónica dos Bons Malandros, por Mário Zambujal
Quem não gosta de boa malandragem? Tem pequenos criminosos, grandes
sonhos e um amor eterno. Tudo servido em doses generosas de linguagem de
rua, sem cair no uso do descontrolado do calão e sem resvalar para a
pieguice.
-O Banqueiro Anarquista, de Fernando Pessoa
Um exercício de prosa curioso. Poderá não saltar imediatamente à vista a contradição do título, mas se lhe chamássemos O Banqueiro Comunista, então despertaria interesse. É um livro pesado que pesa pouco. O foco não será tanto na contradição do título, que o visado de resto se esforça por mostrar que não existe, mas em tempo de crises e soluções imediatas, vale mais do que muitos tratados sobre o que é o que parece ser.