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Tuesday, April 21, 2015

O Diário Oculto de Nora Rute - Mário Zambujal



Gostava de fazer um longo texto sobre este livro. Gostava, mas não consigo. Provavelmente quem viveu aquele período conseguirá tirar muito mais do livro do que quem não era vivo na altura. É preciso haver uma certa dose de vivência pessoal para se conseguir perceber o que foi o ano de 1969 narrado pelo diário de Nora Rute, uma jovem vintona da classe alta portuguesa, que participou um ano antes no Maio de 68 em Paris, que foi rejeitada pelo seu pai por isso e que vive a idolatrar as mulheres mais progressivas em seu redor e a suspirar pelo seu Marcel.

Creio que a escrita fica aquém da Crónica do mesmo autor, mas a capacidade de Mário escrever a sério com um toque de humor, ou humor a sério, está lá. Está lá de tal forma que o livro se vai folheando sem se dar pelo tempo a passar. Para isto é determinante a estrutura de diário com capítulos de formato variável, num tom intimista que suga o leitor para o lado da personagem.

É um livro que se lê de uma penada, bem escrito mas que não entusiasma por aí além, com um final previsível desde cedo.

Thursday, April 24, 2014

Dia do Livro (Atrasado)


Ontem, dia 23 de Abril, foi o dia do Livro e do Direito de Cópia. Não é que tenha deixado passar a efeméride, mas andei-me a debater sobre o rumo que lhe devia dar. A inspiração em que me baseei foi um artigo num blog da página do Guardian, intitulado Five perfect books for men who never read. Segundo este artigo, que se refere, penso, ao universo britânico, cerca de um terço dos homens não leu um livro depois de sair do sistema de ensino. Assim sendo, o autor propõe uma lista de cinco livros para que estes homens recuperem hábitos de leitura.

O desafio a que me propus foi o de executar uma lista semelhante em português. Os critérios que usei para me balizar foram o de já ter lido o livro, de ser de um autor português (o meu conhecimento de outros lusófonos é muito limitado), não ser de poesia, não repetir autores e ser de leitura fácil, sem com isso querer dizer simplória. Ao contrário do autor do blog, deixei de fora exercícios estilísticos como o Finnegan's Wake, o que quer dizer que Lobo Antunes não figura aqui.

Segue abaixo a lista com um pequeno texto explicativo.

-Auto da Barca do Inferno, de Gil Vicente
Para quem anda afastado da leitura, nada como voltar aos bancos da escola, só que agora sem "ter" de ler e antes por "querer" ler. Esta é das obras obrigatórias a (re)ler. Sendo uma peça de teatro está escrito essencialmente em discurso directo, o que simplifica a leitura. Apesar dos quatro séculos dificilmente perdeu o seu tom humorístico.
-O Primo Basílio, de Eça de Queiroz
Sem o estigma d' Os Maias e sem a conotação de crítica d' O Crime do Padre Amaro, é uma obra cujo realismo das relações de Luisa e Basílio chega a roçar o, para a época, erótico. A escrita não tem o peso de nenhuma de outras obras mais conhecidas do autor, e a leitura é fluída q.b.

-Os Bichos, de Miguel Torga
Dificilmente a escrita fica mais rude, mais simples e mais cheia do que nos contos de Torga. Não há português que não perceba, seja doutor ou pedreiro, nem que não reconheça as dores dos bichos. A estrutura de contos ajuda também.
-Crónica dos Bons Malandros, por Mário Zambujal
Quem não gosta de boa malandragem? Tem pequenos criminosos, grandes sonhos e um amor eterno. Tudo servido em doses generosas de linguagem de rua, sem cair no uso do descontrolado do calão e sem resvalar para a pieguice. 

-O Banqueiro Anarquista, de Fernando Pessoa
Um exercício de prosa curioso. Poderá não saltar imediatamente à vista a contradição do título, mas se lhe chamássemos O Banqueiro Comunista, então despertaria interesse. É um livro pesado que pesa pouco. O foco não será tanto na contradição do título, que o visado de resto se esforça por mostrar que não existe, mas em tempo de crises e soluções imediatas, vale mais do que muitos tratados sobre o que é o que parece ser.

Sunday, May 22, 2011

Crónica dos Bons Malandros, Mário Zambujal


 Há uma Lisboa feita de golpes, uma Lisboa de pequenos assaltantes que fazem pela vida, de linguagens secretas, de nomes de guerra. Há uma Lisboa dos malandros. Há tudo isso e seria fácil dizer que esta obra de Mário Zambujal é uma viagem a essa Lisboa. Só que isso não seria verdade!

 A Crónica dos Bons Malandros, que viu a luz do dia pela primeira vez em 1980, é um livro que procura dar razão a quem diz que os trinta são os novos vinte. A julgar pela frescura da escrita os trinta até podiam ser a nova adolescência. O livro encontra-se extraordinariamente bem escrito, facto que hoje em dia pode parecer surpreendente, mas não será tanto se considerarmos a experiência de escrita e comunicação do autor, jornalista de outros tempos, de outras escolas.

 A obra centra-se na história de uma quadrilha de pequenos assaltantes lisboetas, com uma alergia (justificada) a armas, à qual é proposto um assalto à Gulbenkian. Como modo de preparação para o desfecho dessa acção somos levados a conhecer a história dos autores de tão grandiosa empresa e que variado grupo esse é. Há quem tenha nascido com a malandragem no sangue, há quem se tenha visto obrigado a malandrar, há os que se calhar até tinham jeito para outras coisas e no final é impossível não sentirmos alguma afinidade com estes bons malandros e sentirmos alguma pena pelo desfecho final.

 O livro é dos melhores que li em 2011 e o facto de com todo este desfasamento temporal ainda parecer algo novo sem parecer pretencioso reflecte a qualidade da sua escrita, simples sem ser simplista, e que não é mais do que a brisa fresca do Tejo no amanhecer à beira-rio.