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Thursday, April 11, 2013

The Hobbit, An Unexpected Journey

Enquanto se espera pelo segundo filme da trilogia d' O Hobbit, deixo aqui aquilo que é a minha opinião sobre o primeiro filme, O Hobbit - An Unexpected Journey (Uma Viagem Inesperada, em português). Levantando um pouco o véu, algumas das queixinhas que serão aqui apresentadas irão, quase certamente, ser repetidas nos próximos filmes. O atraso, pese alguma ronha em escrever, deve-se fundamentalmente a uma recolha de argumentos esgrimidos em conversas por aí.
Nessas trocas de argumentos acabei por formular a páginas tantas uma pergunta que será o ponto de partida para esta opinião. A questão é: se alteras o sentido de uma obra aquando da sua adaptação, a adaptação mantém validade? 
Neste caso a pergunta faz (talvez estranhamente) sentido. Isto porque há duas formas de ver este filme: ou como a obra que dá origem a O Senhor dos Anéis ou como a prequela d' O Senhor dos Anéis. Podem parecer a mesma coisa, mas não o são. 
Como alguém que já leu as obras várias vezes e que conhece, mesmo que vagamente, o que levou a uma e à outra, encaro O Hobbit como "a obra que dá origem a" e não "a prequela" e isso traduz-se nas frustrações que trouxe do filme. 
Essencialmente, eu não acho que O Hobbit seja apenas um penduricalho, uma espécie de volume 0 d' O Senhor dos Anéis. Ao fim de 33% dos filmes, perto de 55% do livro estará adaptado, e aqui questiono-me se o verbo é mesmo adaptar. Poucos (ou mesmo nenhum) episódios do livro estão conforme o livro (nem sequer o jantar inicial sobrevive à fúria adaptativa). A vontade de adaptar é extensível aos anexos d' O Senhor dos Anéis. Quem pensa que os anexos d' O Senhor dos Anéis serviram apenas para aumentar volume desengane-se! Serviram antes de mais para sugerir coisas giras que podem ser lá enfiadas para o meio sem qualquer respeito pela narrativa.
Numa conversa com um amigo, ele queixava-se que "faltava aquele efeito surpresa de ver a Terra Média à nossa frente". Apesar de perceber o que ele quer dizer, aquilo que senti que faltava foi o olhar de um apreciador da obra. Esse olhar está bem patente n' O Senhor dos Anéis e serve de ponto de partida para se falar um pouco da linha que separa a fidelidade à obra da adaptação. 
Enquanto clássico da literatura infantil, O Hobbit apresenta uma estrutura toda ela muito dinâmica, com cada capítulo a corresponder grosso modo a uma aventura, toda ela narrada de uma forma linear e centrada nesse hobbit que parte com um grupo de anões à conquista de um tesouro numa montanha distante. Seria fácil imaginar que a transposição para o cinema seria muito mais fácil do que a d' O Senhor dos Anéis, mais do que pelas diferentes narrativas, mas mais por todo o peso que as emoções têm no segundo, as descrições mais exaustivas de paisagens e a própria complexidade das interacções das personagens entre elas e o mundo que as rodeia. Claramente, quando se começou a falar da expansão de uma obra apresentada num livro (e um volume) para três filmes, adivinhava-se já que se estava a fugir ao que seria normal numa adaptação (especialmente comparando com o facto de os seis livros - em três volumes - d' O Senhor dos Anéis terem dado origem apenas a três filmes). O que ocorre de facto é que se reescreve O Hobbit como uma obra subordinada a O Senhor dos Anéis (quando na realidade sucede o inverso). Esquecer qual das obras é que se encontra subornidada à outra dá origem à necessidade das contextualizações que esta adaptação a si chama. Isto se quisermos assumir as liberdades criativas tomadas como contextualizações e não deturpações, pois tal apenas é possivel se se entender O Hobbit como aquilo que ele não é: uma espécie, repito-o, de capítulo 0 d' O Senhor dos Anéis. O foco do livro não é como Sauron sobreviveu à Última Aliança de Elfos e Homens e da sua re-ascensão. O foco do livro não é de como Bilbo encontra o anel. O foco do livro não é de como os anões andam a fugir de um Azog (ou sua descendência) que morreu anos antes. Quem apenas vir o filme pensa que O Hobbit existe para que O Senhor dos Anéis possa existir. Repito-o, isso é uma premissa falsa. O Bilbo não decicidiu ir atrás dos anões devido ao apelo do seu lado "Took", ele foi praticamente empurrado por Gandalf e se ele corre porta fora não é por querer aventura é por ter medo das consequências de não honrar o contrato com os anões ao não chegar a horas ao ponto de encontro. Há uma grande importância dada ao "nome das espadas" e esquecemo-nos que a Sting ganhou o seu nome nas Misty Mountains, na fuga do Bilbo de Goblin Town. Há uma necessidade de dobrar a história para o Bilbo ganhar respeitabilidade entre os anões, e esquecemo-nos de um dos momentos em que tal acontece (e em que o anel toma algum protagonismo para tal acontecer). O sentido da história ficou dobrado no momento em que se achou pertinente mostrar o Radagast (e escuso-me de comentar trenós puxados por coelhos) e de como Mirkwood se tornou Mirkwood, de como houve necessidade de mostrar um Conselho Branco (outra vez adaptado) e de como provavelmente se sente a necessidade de vir a mostrar o assalto a Dol Guldur desviando-nos da essência do livro: a busca dos anões pelo seu tesouro e reino perdidos. Arrisco dizer, pelo que já foi revelado, que o Gandalf do início d'A Irmandade do Anel é um banana se ainda não percebeu quem é o Necromante!...
Portanto... O filme enquanto filme mais do que aguentar-se, é uma espectacular obra de aventura, com movimento, batalhas bem coreografadas e que não puxa muito pela cabeça. A fotografia é impressionante e a banda sonora mais uma vez assume o papel de personagem chave. No entanto, chamemos-lhe "Uma viagem inesperada", porque chamar-lhe O Hobbit leva a confusões com um livro cuja narrativa e finalidade diferem largamente daquilo que o autor do filme quis fazer. É um bom filme de aventuras, mas falha a toda a linha enquanto adaptação do livro.

Friday, October 14, 2011

The Legend of Sigurd and Gudrún - J.R.R. Tolkien (editado por Christopher Tolkien)



Ao olharmos a vida e obra de John Ronald Reuel Tolkien, notável filólogo inglês, rapidamente percebemos que para ele a sua ciência implicava algo mais do que estudo, implicava produção, implicava adaptação. Essa sua vontade de produzir, de reinventar, tem permitido que muitos anos após a sua morte ainda nos sejam disponibilizados pelos seus herdeiros, escritos completos ou inacabados, com notas e correspondência do autor, que nos ajudam a decifrar melhor o homem, o autor e o estudioso.

Tolkien nunca negou o fascínio que os mitos e lendas nórdicas exerciam sobre ele, considerando o sucesso da sua obra O Senhor dos Anéis algo surpreendente, por se tratar de uma adaptação do mito do anel dos Nibelungos. Todo esse fascínio revela-se noutros pontos da sua obra, quer literária, quer académica.

Como estudioso que não sou, arrisco dizer que The Legend of Sigurd and Gudrún será uma obra que lhe dá alguma paz de espírito e que simultaneamente constitui um elogio a todos os skaldene que alguma vez abriram a boca. No entanto, como exercício fundamentalmente académico, não será um livro facilmente apreciado por quem não se interessa pelo tema de mitos e lendas nórdicas.

A apreciação da obra sobre ainda outro revés para quem desconhece a poesia nórdica. Pessoalmente estou longe de ser um conhecedor. Conheço alguns versos da Edda, em norueguês moderno, e trechos de sagas em dinamarquês. Não é um conhecimento profundo, mas o suficiente para perceber como embalam as palavras a fala do leitor, perceber qual a melodia que transpira, perceber como soa aquela poesia em redor de uma mesa, com o início de um estupor alcoólico, em noites de neve e gelo. Nesse aspecto a obra de Tolkien está muito bem conseguida. Não constitui uma tradução, antes uma adaptação a inglês. Não soa a um exercício forçado antes uma nova forma de ver, soa a algo que já conhecemos, mas que nos chega sob uma nova luz. Há ali uma sonoridade, um transmitir de sentimentos por parte das personagens que nos transportam para a cena descrita, como em tempos vozes vibrantes transportaram gentes geladas.

Enquanto leigo arrisco dizer que o livro será indispensável para académicos, um bom ponto de partida para curiosos, mas uma obra de sofrimento para quem não tem o mínimo interesse por mitos e lendas nórdicas. Incorre mesmo no risco de transmitir uma ideia errada do que é Tolkien.