Monday, May 21, 2012

A Vida Sexual de Catherine M - Catherine Millet

 
"O desejo exasperado é um ditador ingénuo que não acredita que possam opor-se-lhe ou sequer contrariá-lo.", Catherine Millet in A Vida Sexual de Catherine M.

Lançado em formato de livro de bolso, numa parceria entre a ASA e a FNAC, "A Vida Sexual de Catherine M", da jornalista francesa Catherine Millet, acabou por ser o mais bem sucedido exemplar dessa colecção. Pode haver vários motivos para tal. No que a mim diz respeito, lembro-me de ter adquirido a terceira edição da obra, poucos meses após esta estar disponível. Li... Corrijo, comecei a lê-lo pela primeira vez nessa altura, ainda com vinte Primaveras incompletas. As expectativas para o livro saíram totalmente goradas, não correspondidas, senti que foi dinheiro mal empregue.

Vários factores estariam na base dessa desilusão. Um livro que tem por título "A Vida Sexual" de alguém e que causa alguma celeuma no seu país de origem, não deve ser um livro que prime por pasar uma visão polida, idealizada e púdica, digna de ser partilhada num almoço ou jantar de família. Ou um jovem adolescente assim o pensa!

O factor de choque nesta obra parece que incide não no vocabulário utilizado, não nos relatos descritivos, mas sim na essência do que eles passam. Não é o que diz, mas sim o que não diz que choca na obra. Choca certamente o despudor com que uma figura pública torna pública a sua intimidade, desde as primeiras experiências adolescentes até uma vida adulta recheada de orgias e experiências menos ortodoxas. Só que tudo faz sentido, tudo é parte de um processo, tudo é crescimento e aprendizagem, uma procura da identidade da autora.

O tom da escrita é o de balanço, introspecção. O tom que se usa quando sentimos que parte de nós chegou ao destino e nos propomos a ver como foi a viagem. Funciona, o livro, como balanço ou como exercício de sofá de psicólogo! Uma expedição arqueológica a episódios do nosso crescimento que nos ajudam a perceber porque somos assim, como chegámos onde chegámos. O livro poderia facilmente ter outro título: "A Descoberta Sexual de Catherine M.".

Nesse processo de descoberta, a autora acaba por colocar em planos distintos a sua sexualidade e os seus relacionamentos emocionais. Há, ao longo do livro, uma clara distinção entre ambos, uma distinção que chega a roçar o sobre-humano, uma distinção e um leque de ocorrências que parecem saídas de um filme pornográfico de baixo orçamento, que levam o leitor a questionar-se se não estará a ler uma versão fantasiada dos factos. E isso choca!

Esse é, parece-me, o principal factor de choque no livro. O facto de ser possível colocar em planos distintos a vida sexual e a vida emocional, apesar de se tocarem, vai contra o nosso desenvolvimento e choca. O facto de haver a posibilidade, mesmo que remota, de aqueles factos serem reais, expõe-nos como hipócritas, como criaturas que lutam contra a sua própria natureza. Que o faça numa linguagem simples, sem abusar do calão, mas não se coíbindo de chamar o caralho, o cu, a cona ou os colhões pelos nomes que todos usamos quando falamos, apenas reforça esse sentido de choque.

Haverá quem queira odiar o livro pela explicitude que não tem e acabará a odiá-lo por se recusar a cair no banal, no pornográfico. Por outro lado, o público mais imaturo, o público das vinte Primaveras, acabará por odiar o livro por não ser suficientemente pornográfico. Para esse público o livro não lhes dá nada de mais, para esse público há uma panóplia de outras ferramentas. É por isso que este é um livro que deve ser lido, preferencialmente, por gente madura: quem não se conseguir chocar com o livro e o achar banal, provavelmente ainda não tem quilómetros de estrada suficientes para ler o que não está escrito. Só uma audiência madura conseguirá notar a fina linha que na obra separa as vicissitudes e o sofrimento das alegrias vividas, porque a forma de a autora ultrapassar umas e saborear as outras, é em camas, ao ar livre, com um parceiro ou com vinte. É polémico por expôr uma pessoa. E todos somos humanos...

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